Agora aqui para nós, que ninguém nos ouve (não se preocupem, este blogue é largamente disto de tudo quanto sejam multidões e/ou exageros de qualquer espécie -a única exagerada sou eu -, estejam à vontade), quero anunciar que amanhã entraria de férias se não tivesse a merda de vida que tenho. É forçoso rejubilar porque tenho emprego e trabalho e o caraças e o raio que parta esta merda toda mas depois não tenho a porra das férias. Merda.
Gina, a mulher que tem um blogue
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Post atrasado
Hoje e agora vou reproduzir laconicamente – creio eu, ou pelo menos primariamente tenho essa intenção - o que fui escrevendo durante o fim-de-semana passado no Norte do país.
Loures, 7:07 da manhã; direção: Felgueiras. Breve poiso aqui e ali. Primeiro contacto com a pronúncia do norte em Condeixa. Haviam chegado os pastéis de Tentúgal naquela hora, o Luís queria um, que um pastel quentinho é apelativo que se farta.
– Ó amigo, depois veja-me aí assim um pastel quentinho.
Volta-se o 'amigo':
– 'Olhe que num cunbém'!
Sábio conselho, chegaria uma valente diarreia, é mais que certo... Não se comeu um pastel quentinho, comeu-se um pastel do dia anterior. Melhor assim.
Retoma da viagem, poucos poisos, agora. Quilómetros depois houve paragem no Porto e um encontro com a bloguista mais simpática deste universo que é a blogosfera, Dona-Redonda. Gostei imenso de estar com ela, passeámos, conversámos e tal, daqui te agradeço tão bons momentos, Redonda.
Mostrei-lhe as fotos que tenho no telemóvel, lugares que frequento ou visito de raspão, e também as fotos dos ricos filhos. Durante montes de tempo não me calei, ia expondo as imagens, e blá blá e blá blá e blá blá, o que de certo modo não tem muito a ver comigo, a não ser que o/a ouvinte tenha prazer em escutar-me, o que parece ser o caso desta querida amiga bloguista.
E faltava o resto da viagem...
Pois é, Caldas de Felgueiras. Caldas de Felgueiras. Não Felgueiras, nada disso. Ou seja: fizemos para aí uns trezentos quilómetros a mais. Enganámo-nos, não era tão lá para cima assim, perto do Porto, era cá mais para baixo, junto a Viseu, uma vila que beija os montes da Serra da Estrela. Bem... Ao menos vi a Redonda e visitei o Porto uma vez mais, desta feita conhecendo a praia de Matosinhos que é qualquer coisa de absolutamente estonteante, eu cá fiquei sem ar quando vislumbrei aquele areal imenso...
P.S. E agora aqui estou, num quarto de hotel termal, circundado pela mais bela vegetação e arvoredo, uma paisagem pintada de outono mas ainda algo afastada dos tons acobreados.
Mudando de assunto: não é Caldas de Felgueiras. É Caldas da Felgueira, no singular.
Estou doente ou uma espécie disso. O interessante desta situação é eu estar como que constipada numas termas célebres pelos seus tratamentos às vias respiratórias. Aqui o ar é pesado, não há vento, estamos num vale, o que me transmite uma sensação de vácuo impressionante. Só não sei se é mesmo assim, se sou eu que por estar esquisita da cabeça me dá para sentir vacuidades...
Ao almoço comi uma sopa da pedra tão boa... O bacalhau também não estava nada mau, mas aquela sopa...
Visitei uma feira medieval em Canas de Senhorim. De manhã assisti por assim dizer à montagem das bancas e à noitinha fez-se a visita propriamente dita. Comprei umas coisitas tão giras quanto inúteis e iguarias típicas.
Breve passagem por Póvoa Dão, uma vilazinha histórica e totalmente recuperada, com belas vistas e muito locais pitorescos a visitar.
Numa incursão pela vila uma senhora interpelou-nos da seguinte forma:
– Ah, eu vou incomodar estes senhores...
Queria duas moedas de cinquenta cêntimos para trocar por uma de um euro, que já havia dois dias que ofertava um euro e não se pode esmolar tanto assim a igreja...
Acordei às seis e vinte e cinco e já não consegui estar sossegada, não ando a dormir lá grande coisa, não senhores. Às sete em ponto os passarinhos iniciam a chilreada como se estivessem programados para tal, fazendo a vaza dum despertador. Fiquei a ouvi-los um pouco e levantei-me, o que vale é que servem o pequeno-almoço a partir das oito... Depois de algo refeita, que eu cá depois de comer fico sempre melhor, houve mais passeatas por aí.
Regresso. Não me sinto nada bem. Credo, tanta quilometragem, para que é que eu me meti nisto? Almoço em Arganil: leitão. Estou doente. Caraças, pá. Nem gozei a viagem para cá nem nada. E a gente a passar ali tão próximo de lugares como Conímbriga... Ná, casa.
domingo, 7 de outubro de 2012
Por casa;
Por agora;
Por enquanto...
Ninguém sabe, não anunciei e no entanto parece-me que toda a gente sabe: estive fora este fim-de-semana maior que o costume. Fui a Caldas da Felgueira.
Ninguém sabe, ainda não anunciei e no entanto parece-me que toda a gente sabe: estou doente... Ou doentinha, vá (ingiro um caldo de galinha ao momento da feitura deste post ao ritmo de um golinho, meia frase, um golinho, uma frase). Por isso deixo fotos de (quase) todos os locais onde passeei nestes dias e acabou a brincadeira de blogues por hoje. Amanhã logo trato das histórias.
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| Matosinhos |
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| Porto |
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| Caldas da Felgueira |
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| Caldas da Felgueira |
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| Caldas da Felgueira |
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| Canas de Senhorim |
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| Póvoa Dão |
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| Póvoa Dão |
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| Oliveira do Hospital |
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| Avô |
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| Avô |
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| Avô |
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| Coja |
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Resquícios
Outro resquício das férias foi um jantar. Experimentei uma receita do Rudolph* → Frango com Piripiri à Portuguesa. Sim, o Rudolph fez essa referência, é um prato tipicamente português, disse inclusive que quando preparava a viagem a Portugal na agência o tinham aconselhado a provar o nosso frango com piripiri.
Dispõe-se um frango cortado em pedaços numa travessa de ir ao forno e tempera-se a gosto com azeite, sal, malagueta fresca e alhos, estes últimos picados finamente.
Por cima coloca-se cebola às meias luas grossas e pimento vermelho cortado em pedaços. Tempera-se a cebola e o pimento com sal e pimenta.
Finaliza-se com uma laranja cortada às rodelas.
Vai ao forno quente. Muito quente.
Ora bem, não posso dizer que tenha adorado a receita, o frango fica um bocado para o cozido, não adquire o aspeto de assado e tostado, talvez pela humidade dos legumes e da laranja. E também acho que a laranja nesta receita não é uma 'coisa' à portuguesa. Mas pronto... Quem sou eu para contrariar o Rudolph?
Comprei uma laranja propositadamente para esta receita. Uma, só uma, que agora as laranjas não têm a mínima piada, não é tempo delas. Escolhi-a dum cesto onde estava as melhores e mais caras, custou 23 cêntimos. Conclusão: perdi 23 cêntimos, que a laranja parece-me perfeitamente dispensável.
*Programa visto no canal 24Kitchen
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Resquícios
Não foram grandes férias, não. Não foram grandes, pois não. Mas estou com saudades de casa, do ninho e assim, de andar descalça e trajar roupas desafogadas. Mesmo de ouvir o sinal sonoro tururú-tururú do messenger, o chat da internet mais usado por amigos e família, vindo da janela vizinha, ou ainda de ouvir um cantor espanhol que canta 'avé maria, quando seras mia' (deve ser religioso, este cantor...), cujo som estridente também saía daquela janela.
Ai, que saudades.
Regresso
Regresso. Ao trabalho. Que outro título, né?
Pois muito bem. Está-se bem e coiso. Cagari, cagaró.
Pois muito bem. Está-se bem e coiso. Cagari, cagaró.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Sem título
Apresento este post sem título porque não sei como condensar o facto de querer escrever um texto onde registo que se me acabaram as férias...
Este grupinho de dias de férias foi tão breve que mais pareceu um fim-de-semana prolongado. Se bem que um fim-de-semama desses costuma incluir feriados e ontem e hoje não foram dias desses, pois se não teria sido impossível ir à Biblioteca e à retrosaria, como efetivamente fui.
Na Biblioteca fiquei a saber que tinha livros fora de prazo, porque, aparentemente, há uns livros que são mais importantes que outros, de maneiras que não podemos ficar com eles tanto tempo assim.
Na retrosaria fiquei a saber que sou muito boa a escolher cores de linhas se não tiver um pedacinho do tecido para amostra. Não sei se deu para perceber que escolhi a cor a olho. Não sei se deu para perceber que sou mesmo boa porque acertei na cor, rigorosamente, é tal e qual.
No caminho para casa vi as hortências já murchas. Por um lado temos o sol imenso, por outro, o outono a chegar, época de amarelar.
Outono não rima com férias. Não condiz, não casa.
Ora bem, se as férias acabam hoje, amanhã vou trabalhar. Irei trabalhar. Não, não tenho saudades.
Comecei o texto sem saber o que escrever (veja-se o título) e termino exatamente igual. Pelo meio ficam as patacoadas do costume.
Narcisa
Momentanemente
De momento estou indecisa sobre o que escrever. Não tenho muito jeito para ter um espaço de tempo certinho e destinado à criação de textos, por isso, nestes dias em casa, fico perdida. Já cá venho e talvez nem demore nada.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Almoço
Neste momento estou com a impressão que o mundo inteiro quer saber tudo acerca do meu almoço. Às vezes dão-me estas coisas...
Almocei omolete de queijo francês com coentros, beringela e pimento vermelho grelhados e salada de alface, de sobremesa salada de fruta com iogurte grego, finalizando com um aromático café.
Estar completamente sozinha em casa faz-me uma certa impressão. É por isso que comunico com o mundo, primordialmente um blogue é para isso mesmo.
Telenovela
Estive a ver uma novela, o que prova que estou de férias. Não é que não goste ou sinta repulsa por novelas, não sou dessas, é porque noutras alturas, menos ociosas, não tenho tempo para ver na tv tudo o que gostaria, tenho de fazer escolhas.
Foto de sexta-feira
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| Lisboa, 14 de setembro de 2012 |
Na sexta-dfeira esqueci-me completamente de apresentar esta foto. Passado o fim de semana sinto que não a devo ignorar. Trata-se de uma imagem que há muito tempo queria captar, desde este dia...
«Lisboa, 21 de agosto de 2012
Ontem, ao descer, vi o arbusto das malaguetas (não sei como se chama, parece não é malagueteiro ou malagueteira) projetando uma sombra muito definida na parede devido ao sol direto e pleno, numa hora em que é suposto assim ser – 3 e tal da tarde. Gostei da visão: os pontinhos vermelho vivo, as folhas brilhando, os ramos obscuros, quase cinzentos, onde não se via quentura, mas levando em conta a caloraça do dia...
Mas hoje não deu para ir lá abaixo tirar fotos, por isso descrevo uma imagem que não captei.»
Registo
São dez da manhã.
De momento quero registar que é fixe estar em casa numa segunda-feira de manhã, hora e local que geralmente não coincidem.
Há escola e trabalho para todos, menos para mim, o que me faz sentir como que ilícita.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Vou estar de férias...
Sim, hoje é sexta-feira, daqui a nada estou de férias. Curioso o facto de os sábados e domingos também serem número se antes da segunda-feira primeiro dia de férias, porque sendo ao contrário não os sinto assim.
Estou quase de férias mas não parece. Mas estou. Urras.
P.S. Hoje fui desejando ao longo do dia terminar todos os meus rascunhos. Ali pelo meio ainda tentei efetivamente esgotar tudo, tudo, tudo. Não sei, às vezes apetece-me terminar a escrita. Não me refiro a terminar o blogue ou a deixar de escrever, por vezes só queria ter a cabeça limpa e vazia. Estou cansada, mas não consigo parar de escrever ou deixar de ter assuntos nos quais tenho vontade de tocar.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
As aventuras duma balconista de regresso ao trabalho
Preâmbulo
Podia dizer que é a parte dois d' «As aventuras duma balconista de regresso ao trabalho» mas isso implicaria continuar mais uns dias com este tema, ideia que não me apraz, sei que me farto de tudo com facilidade e assim antevejo o enjoo. Esta não é a parte dois de porra nenhuma, portanto, é, isso sim, um texto ao qual decidi dar o mesmo título e apresentar com as mesmas características porque o nível de criatividade anda baixo.
......................................................................................
Tenho saudades dos ricos filhos, estava habituada a estar com eles por perto todo o dia. Agora sinto a falta da sua presença, vozes, ditos engraçados e leves, tão próprios dos jovens.
Os adornos - brincos, anéis e pulseiras – estão a fazer-me uma confusão do caraças, cócegas e assim, o que contribui um tudo-nada para me enervar.
Ontem mantive a esperança de me inspirar por estar no lugar que mais me impulsiona a escrita. Hoje subsiste ainda uma réstia dessa esperança, quiçá vã. Tenho mais o que fazer mas estou a escrever.
Já vislumbrei pessoas de quem não tinha saudades. Já tomei consciência do mundo real, da vida real, das pessoas reais.
Escrevo para não chorar. Não, não estou triste. Não sei desenvolver o fenómeno – ou deveria dizer absurdez - mas querendo explicar, não passa disto: escrevo para não chorar.
Almoço: bife de peru com arroz branco e salada mista. Como pouco, a zona fazendo a vaza de atenuante do apetite, outra vez.
Desculpem lá o abuso mas eu sou boa de caras, muito boa mesmo. No lugar da musa, lá ao fundo, vi um jovem que antes das férias tinha um penteado invulgar, uma franja grossa e comprida, já escrevi algumas vezes acerca dele. Hoje vinha com pente 3, quase careca, estava muito diferente, todo o rosto se alterou mas reconheci-lhe imediatamente os gestos e a postura elegante e reservada.
Continuo sem conseguir ler. Ontem parei a leitura num pequeno excerto que me teletransportou para uma vacuidade indesejada, a masmorra, ou lá que é isto, sinto que sou parte daquelas palavras, estão gravadas no meu cérebro, por isso saltam à vista nas minhas atitudes e expressões:
«Segurava a carteira com as mãos, encostada ao ventre, e fixava-me com um ar de inocência e de enfado.
'Cá estou eu', dizia ela. 'Se para si for cedo demais, posso esperar, ou se tiver mudado de ideias...'*.
Dificilmente sairei da masmorra, por agora. Eu sou assim, tal e qual, frontal e lacónica nas introduções à conversa e sempre disposta a não aborrecer ou melindrar.
Sou terrivelmente desconcentrada, e nestes últimos dias piorei substancialmente. Se não há concentração para ler, a ver se escrevo então, que a bem da verdade é o que me está a faltar.
Cinco da tarde, hora de mais um passeio. Comigo tem de ser assim, há que sair para arejar, sofro dos nervos.
Enquanto caminho dou as boas-vindas ao sono, tenho as pálpebras pesadas, mal abro os olhos. Este entorpecimento é bom e sabe bem, a dormência leva-me para longe a vida, pouco me importa que uns mandem raios à direita e outros lancem bátegas de água pela esquerda, que vão todos dar uma curva enorme...
Uma conhecida minha diz que se tivesse de escrever uma história, escreveria sobre a cunhada, que é linda e tem sofrido grandes dissabores na vida.
Concordo → a cunhada dela é indubitavelmente linda, e sei por experiência que as pessoas vistosas... São isso mesmo, vistosas, dão nas vistas, é um 'empurrão' para escrever. Mas eu, que tenho a mania que sou escritora, escolheria uma pessoa cinzenta, donde não chispassem espectros luminosos, sem relevos instantâneos, pois o meu prazer em escrever é colocar o secundário no protagonismo, destacar o insignificante.
*In 'O olhar das mulheres', Max Gallo (página 114)
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
As aventuras duma balconista de regresso ao trabalho
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| Las Chapas, 28 de agosto de 2012 |
Primeiro a notícia mais importante: a roupa de trabalho ainda me serve, para meu gáudio. Rejubilei, portanto, o que não costuma acontecer, que aquela indumentária deprime-me de sobremaneira, e aqui já não estou a falar de larguras.
De manhã, no carro, vinha escrevendo um post na minha cabeça - que é mais ou menos o que faço em todos os instantes da minha vida – resumiria num texto toda e qualquer pessoinha que entrasse loja adentro, referindo que todos iam perguntar ‘então e as férias?’, e imaginava que veria a dona Adelina, a dona Luísa, a dona Delmira, a dona Marília, a dona Maria do Céu... Mas ninguém apareceu. Excetuando as últimas duas, sendo que a primeira nem se lembrou das minhas férias e a segunda veio pedir emprestados dez euros, o que as coloca bastante arredadas do assunto ‘férias’, pelos vistos.
Tomei contacto com vendedores e clientes, já se sabe, uma balconista não o é sem estas classes. Reformulei pela enésima vez o pensamento desmoralizador: não tenho vocação para esta profissão.
Dos vendedores, um, ao telefone, foi chato como a potassa – ou não fosse eu droguista -, queria vender tudo duma só vez. Outro, mais comedido, com um ar de Jeremy Irons mas em tamanho minhon foi tão simplório que deu pena, vá lá, homem, deixe lá um cartãozinho que eu prometo pensar em si quando o estiver a arrumar.
Dos clientes, um perguntou-me desde quando é que o restaurador olex é àquele preço, ao que eu me limitei a encolher os ombros e dizer baixinho: ‘desde agora’. Outro diz que um canivete pequeno é suscetível de ser mais barato, deu-me vontade de responder ‘cá para mim você gastou o dinheiro todo nas palavras’.
Almoço: peixe assado. Esta zona tem em mim o efeito de me tirar o apetite, o que não é de todo indesejável, a fome não me faz falta nenhuma.
No deambular, que retomei de bom grado, corria um ventinho agradável. A minha franja andava aqui aos rebolões, tapava-me a visão, quase desejei ter o penteado da miúda do rés-do-chão - que tem cancro e anda careca pela rua passeando o cão – mas sem a chatice do cancro, claro.
Que não se ligue muito a este item, são resquícios das férias, esse tempo que estupidifica qualquer um.
Um dos sofás pretos tem um pé torto, prestes a partir de vez, por pouco não caí eu. São aquelas senhoras da avenida que andam sempre a arrastá-los para se sentirem juntas e aconchegadas, ouvirem-se melhor.
Não consegui ler, tudo me desconcentrou. Preciso de escrever.
Na cave, tudo na mesma: o radio precisou da carícia habitual para se lhe soltar o som e as prateleiras estão empoeiradas e inertes, esperando que alguém lhes mexa → eu...
No resto do dia, tudo bem. Tirando a agonizante dor de pernas - já nem me lembrava que existia este tipo de dor, credo, oh céus -, mais a dorzinha de cabeça parva, a dorzinha é que é parva, não eu, pois tudo muito bem sim senhores, o dia passou-se muito bem mesmo. Só por dizer que tive pouco tempo para escrever, o regresso sempre me azafama, pouco descanso enquanto não vejo tudo encaminhado, daí este texto produzido à pressa, ainda que não se note pressa nenhuma nas minhas palavras, tenho a certeza, se algum leitor chegar aqui vai pensar ‘ena, que texto fantástico, nem imagino como escreverá esta senhora quando está inspirada’.
domingo, 9 de setembro de 2012
Zoom focal
Amanhã é dia de trabalho. Pronto, vá, eu confesso: tenho saudades. Não do trabalho, pois não trabalho por prazer, antes da envolvência, há certas coisas advindas dessa envolvência que me são vedadas, por assim dizer, em tempo de férias. Vou trabalhar.
Zoom focal, o título, é porque eu sou pouco criativa a intitular, e como esta fotografia tem essa máscara... Fica assim o assunto arrumado.
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| Las Chapas, 28 de agosto de 2012 |
sábado, 8 de setembro de 2012
Tempo para observar a vizinhança
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| Loures, 8 de setembro de 2012 |
Tenho um vizinho que passa o dia à janela do seu rés-do-chão, não fazendo, portanto, a ponta dum corno. Consta-se que passa substâncias ilícitas através dos jovens do secundário e ao que parece possui um historial (afamado entre as gentes deste bairro) de ex-presidiário.
À parte estas questões, é notoriamente um bon vivant, é muito comunicativo e prestável, nomeadamente a abrir a porta da entrada aos vizinhos que chegam carregados com sacos de compras, isto estando dentro da sua casa. Dá a ideia de que o homem faz o que faz com as substâncias mas quer cair nas graças do povo, particularmente os deste prédio.
Fui várias vezes uma das felizardas a quem se lhe abriu a porta como que milagrosamente. Um amor, este vizinho. Desfazia-me em agradecimentos sempre que a minha entrada no prédio era favorecida por tão gentil alminha. Para que me interessa se o homem foi, é ou faz, né? Quero lá eu saber... Abra a porta, que a gente até esquece, vá.
Até um dia, pois há sempre um dia.
Um dia ouvi-o bendizer a mulher, que é uma moira de trabalho, que faz muitas horas seguidas, chega extenuada e ainda vai cuidar da bebé e da casa, batati-batatá, pardais ao ninho. Não me contendo, soltei um 'haja alguém que trabalhe!'. Asseguro que só quis ser engraçada mas não obtive sucesso.
(Pela boca morre o peixe...)
Resultado: o homem nunca mais me facilitou a entrada... Venha eu carregada, ou não.
Tenho um vizinho que tem um Ford Fiesta. Anda sempre em alta velocidade por aqui, fazendo crer que tem uma bólide nas unhas. Mas não tem. Não sei explicar isto, só sei que o carro não vale nada. Não há praticamente dia nenhum em que não veja a porra do homem. É enorme, tem uma voz possante, é presunçoso que se farta. Já chega, que já estou a dar importância a mais...
Os meus vizinhos de cima são pretos. (Fica mais bonito se escrever africanos, né?) Pelo que se me consta são cinco: pai, mãe e três filhos ainda crianças. A miúda do meio caga-se de medo da Olívia, vá-se lá saber porquê, a minha cadela é um doce de bichinha. Agarra-se ao irmão mais velho ou à mãe ou ao pai. Raio da miúda, pá! Um dia 'inda lhe pergunto: 'olha lá, tu és preta (ai, perdão, africana) e a Olívia também é escurinha, já viste? Não tenhas medo, rapariga...'
Registo
Tenho saudades de usar saltos altos.
Não os uso por preguiça.
Chegada a hora de sair enfio os chinelos e já está.
Pausas para férias têm este efeito em mim.
Há que contrariar.
A vida é assim: efeitos e contrariedades.
Por mesquinhos que sejam.
Mesmo de férias.
Principalmente de férias.
Mesquinhos, principalmente estando de férias.
Pois a vida, se é uma vida de férias, é mesquinha.
Levantam-se os trabalhadores e pumba, vem a mesquinhez.
Invejosos...
Não os uso por preguiça.
Chegada a hora de sair enfio os chinelos e já está.
Pausas para férias têm este efeito em mim.
Há que contrariar.
A vida é assim: efeitos e contrariedades.
Por mesquinhos que sejam.
Mesmo de férias.
Principalmente de férias.
Mesquinhos, principalmente estando de férias.
Pois a vida, se é uma vida de férias, é mesquinha.
Levantam-se os trabalhadores e pumba, vem a mesquinhez.
Invejosos...
Falta o Marinho...
Era agosto, ainda. Passei junto ao gradeamento da escola pública, vazia nessa altura, e vejo uma figura pequena e redonda lá dentro, varrendo o enorme espaço. Era um homem mais ou menos da minha idade, que em tempos foi criança, como eu. Brincámos juntos, às escondidas, só os dois, é a recordação mais viva que tenho. Era giro brincar com ele, fácil. Não gostava da desordem nem de guerrear, já em criança essas facetas representavam um entrave nas minhas relações, logo, éramos grandes amigos.
É o Marinho, um dos jardineiros aqui da cidade.
Meti-em com ele, chamei-o:
- Marinho!
Atendeu-me e aproximou-se, perguntei-lhe se se lembrava de mim, tirei os óculos escuros para o facilitar, fez um esgar duvidoso.
- Sou a Gina...
Lembrou-se imediatamente, vi no seu rosto. Senti-me aliviada. Reconheci-lhe traços físicos da mãe, inclusive, e por estranho que pareça, o tom da voz. Entretanto fiquei vazia, sem assunto, sei que a mãe e o pai morreram há vários anos, não ia perguntar por eles, e a irmã é uma pessoa que não me interessa... O local e a sua atividade salvaram-me.
- Andas a limpar a escola?
Retirava as plantas que cresciam nas juntas dos mosaicos, que agora, sem as crianças por ali, haviam crescido imenso, e para além disso com a escola de repouso é que era.
Perguntei-lhe se se importava que eu lhe tivesse chamado Marinho, pois era conhecido por esse diminuitivo na infância. Claro que não, disse, ainda há pessoas que 'coiso'.
Ali pelo meio fui-me lembrando que ele teve um deficiente aproveitamento escolar, nunca foi muito esperto na escola e isso afinal refletiu-se na sua vida adulta, sendo que ainda diz 'da Murteira' quando deveria dizer 'na Murteira' e tem grande dificuldade em se expressar.
- Gostei de te ver, Marinho. Mesmo a sério.
- Também gostei.
Falámos pouco, não passou disto. Curioso como as pessoas que tanto preencheram a minha vida, hoje, chegada a este estágio, não há cumplicidade, a menos que me agarre ao passado. Mas o passado não me sustenta...
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