Enviei um texto para um passatempo que ocorria no fuçasbuque. Hum, é capaz de ficar bem eu enviar o texto tal que escrevi há tempo, pensei eu. Ultimamente, em participações literárias não me desapego da malícia, de maneiras que andei pelo meu velho blogue pesquisando o texto que tinha em mente. Encontrei-o, aprimorei-o e enviei-o. Não sem antes ter lido que uma das regras do passatempo era o pequeno conto não exceder os mil caracteres, já incluindo os espaços. Contei os caracteres do meu conto. Tinha dois mil duzentos e sessenta e seis caracteres (381 palavras). Não fiz caso e enviei na mesma, supondo que não fossem rígidos e mais não sei o quê. Enviei o texto estupidamente. Fui pateta. De todo. Caraças, pá. Não foi aceite. Claro que o texto não foi aceite, mas já que o modifiquei, publico-o no blogue, acrescentando ainda que o mesmo é ficcionado em alguns aspetos, o que é uma raridade em mim.
Largueza à Vista
Encontrava-me numa casa desconhecida e vislumbrei a paisagem através duma nesga do cortinado florido. O meu desejo imediato foi aproximar-me e ficar ali a mirar sem pressa. Nunca vira a alameda daquela perspetiva e perguntei ao dono da casa se não se importava que fosse espreitar.
– Ó minha senhora, claro que não, faça favor! - Diz ele todo gentil, com um espanto divertido assomando o olhar. Fui até à janela, curiosa e satisfeita. Afastei o cortinado com suavidade, para fingir um apaziguamento que não sentia, e olhei para a imensidão de cimento ladeado de árvores despidas, nos dias de agora. A atmosfera estava impregnada de escape automóvel, não que estivesse lá fora, mas sei como é, a alameda e eu somos amigas. Cúmplices, até. Porém, dentro de casa cheirava a perfume de parede, um difusor elétrico espalhava um agradável odor. Dei atenção às vistas, então.
Há quem não goste da largueza e da espécie de desamparo que a alameda remete ao transeunte. Mas isso são os transeuntes, que os voyeures gostam. Ou por outra, eu gosto.
A bem da verdade aprecio bastante espaços nus ou sem características crepitantes, que pipocam sensações assim que lhes pousamos o olhar. Fiz saber este gosto ao meu interlocutor do momento, que me respondeu nunca ter reparado nisso. Abre a boca em sinal de surpresa e detém-se algo maravilhado com a minha prosa. Para ele a alameda são meros pedaços de estrada e algumas árvores que florescem na primavera e cujas folhas caducam no outono. Apenas. Ou então uma imagem recortada por uma janela envidraçada e enorme, por onde ele espreita sempre que está aborrecido com o que passa na TV. Desenvolvi um pouco mais a conversa, aproveitando o raro facto de ter um ouvinte interessado. Contei-lhe do prazer especial que tenho em observar paisagens despidas, como que desprovidas de personalidade, com pouca coisa onde sustentar a vista. Acho melhor assim, é como estender a mão mas manter-me quieta, existe uma simplicidade natural, a gente percebe rapidamente toda a envolvência, está tudo ali, sem torneados e arabescos. Floreados e afins. Nada. A realidade crua e virgem é a que mais admiro, para lhes achar as subtilezas. Sou artista, gosto de telas em branco, olho a paisagem e construo a história como me aprouver.
(15 de fevereiro de 2013)
(15 de fevereiro de 2013)
2 comentários:
Ficaste aborrecida?
Não te esqueças que seríamos injustos para com que cumpriu a regra do passatempo que aceitássemos o teu.
Gostei do ler. Sabes que o passatempo foi promovido num blog que não era o meu, e a blogger não me chegou a enviar os textos excluidos.
Se foste pateta? Foste... Era fácil reduzires esse texto. Mas ficava menos bonito...
Fiquei aborrecida apenas comigo, Olinda. Fui mesmo, mesmo, mesmo pateta.
Ainda bem que gostaste. :)
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