Gina, a mulher que tem um blogue

Gina, a mulher que tem um blogue

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Mil

Enviei um texto para um passatempo que ocorria no fuçasbuque. Hum, é capaz de ficar bem eu enviar o texto tal que escrevi há tempo, pensei eu. Ultimamente, em participações literárias não me desapego da malícia, de maneiras que andei pelo meu velho blogue pesquisando o texto que tinha em mente. Encontrei-o, aprimorei-o e enviei-o. Não sem antes ter lido que uma das regras do passatempo era o pequeno conto não exceder os mil caracteres, já incluindo os espaços. Contei os caracteres do meu conto. Tinha dois mil duzentos e sessenta e seis caracteres (381 palavras). Não fiz caso e enviei na mesma, supondo que não fossem rígidos e mais não sei o quê. Enviei o texto estupidamente. Fui pateta. De todo. Caraças, pá. Não foi aceite. Claro que o texto não foi aceite, mas já que o modifiquei, publico-o no blogue, acrescentando ainda que o mesmo é ficcionado em alguns aspetos, o que é uma raridade em mim.

Largueza à Vista

Encontrava-me numa casa desconhecida e vislumbrei a paisagem através duma nesga do cortinado florido. O meu desejo imediato foi aproximar-me e ficar ali a mirar sem pressa. Nunca vira a alameda daquela perspetiva e perguntei ao dono da casa se não se importava que fosse espreitar.
– Ó minha senhora, claro que não, faça favor! - Diz ele todo gentil, com um espanto divertido assomando o olhar. Fui até à janela, curiosa e satisfeita. Afastei o cortinado com suavidade, para fingir um apaziguamento que não sentia, e olhei para a imensidão de cimento ladeado de árvores despidas, nos dias de agora. A atmosfera estava impregnada de escape automóvel, não que estivesse lá fora, mas sei como é, a alameda e eu somos amigas. Cúmplices, até. Porém, dentro de casa cheirava a perfume de parede, um difusor elétrico espalhava um agradável odor. Dei atenção às vistas, então.
Há quem não goste da largueza e da espécie de desamparo que a alameda remete ao transeunte. Mas isso são os transeuntes, que os voyeures gostam. Ou por outra, eu gosto.
A bem da verdade aprecio bastante espaços nus ou sem características crepitantes, que pipocam sensações assim que lhes pousamos o olhar. Fiz saber este gosto ao meu interlocutor do momento, que me respondeu nunca ter reparado nisso. Abre a boca em sinal de surpresa e detém-se algo maravilhado com a minha prosa. Para ele a alameda são meros pedaços de estrada e algumas árvores que florescem na primavera e cujas folhas caducam no outono. Apenas. Ou então uma imagem recortada por uma janela envidraçada e enorme, por onde ele espreita sempre que está aborrecido com o que passa na TV. Desenvolvi um pouco mais a conversa, aproveitando o raro facto de ter um ouvinte interessado. Contei-lhe do prazer especial que tenho em observar paisagens despidas, como que desprovidas de personalidade, com pouca coisa onde sustentar a vista. Acho melhor assim, é como estender a mão mas manter-me quieta, existe uma simplicidade natural, a gente percebe rapidamente toda a envolvência, está tudo ali, sem torneados e arabescos. Floreados e afins. Nada. A realidade crua e virgem é a que mais admiro, para lhes achar as subtilezas. Sou artista, gosto de telas em branco, olho a paisagem e construo a história como me aprouver.

(15 de fevereiro de 2013)

2 comentários:

Olinda Gil disse...

Ficaste aborrecida?
Não te esqueças que seríamos injustos para com que cumpriu a regra do passatempo que aceitássemos o teu.
Gostei do ler. Sabes que o passatempo foi promovido num blog que não era o meu, e a blogger não me chegou a enviar os textos excluidos.
Se foste pateta? Foste... Era fácil reduzires esse texto. Mas ficava menos bonito...

Gina G disse...

Fiquei aborrecida apenas comigo, Olinda. Fui mesmo, mesmo, mesmo pateta.
Ainda bem que gostaste. :)

Arquivo do blogue