Gina, a mulher que tem um blogue

Gina, a mulher que tem um blogue

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ainda

Deixo três rascunhos para trabalhar no porvir. Oh céus, que alívio, nem dormiria descansada se tivesse tudo escrito.

3525

Música e falas misturam-se e depois há uns sons por baixo dos sons que estão em cima. Esta cidade devia ser mais tumultuosa, há sossego a mais.
Cheira a gás. Devia trabalhar noutro sítio. Qualquer um.
Se alguém já experimentou aquele sentimento (vil) de desejar com um ardor desmesurado algo diferente na sua vida, por menor e menos bom que seja se comparado com aquilo que se tem, sabe do que estou a falar. Para os outros, os que não conhecem o vil, não passam de queixinhas sem razão, isto que escrevo agora.

É noite

Anoitece tão cedo, é o pino do outono, temos mais um mês e pouco para os dias decrescerem, vão ser tão pequeninos, tão pequeninos, os dias. Rente ao Natal 'o sol mal conta um bocadinho de manhã e mal conta um bocadinho à tarde', como diz a minha mãe, já eu registei por aí algures.
Anoiteceu há um bocado de tempo, nem dei conta senão agora. Está muito frio mas as pessoas vivem, os jovens, esses então têm a mesma vivacidade. Mal era se não a tivessem.

De volta

Na loja de artigos de casa e com motivos natalícios, ou seja: azevinho pintado, há pratos e travessas com marcas castanhas fingindo ser esmalte lascado. Passei a unha. Passei a ponta dos dedos. Senti as rugas do fingimento do fabricante. É apenas tinta castanha, pinceladas às ondinhas a querer parecer feitas ao acaso, por causa da longevidade da louça e isso, quando na verdade a louça é nova e está para venda nas prateleiras da loja.
E hoje, mau grado, e tem um bocado a ver com o parágrafo anterior, esteve aqui um cliente que disse ser aficionado das coisas antigas e dos modos antigos de fazer as coisas. Coisas. E coisas. Parvo. Uma pessoa tem de se modernizar, ora que porra.

Momento final (creio)

Agora estou um bocadito desesperançada de arranjar mais assuntos. Ou seja: não tenho rascunhos e sinto-me mal.

Folhas

Não percebo porque não posso apanhar uma folha do chão e sentir-me uma pessoa normal.
E não percebo porque não posso agachar-me para apanhar outra folha, porque é doutra cor, desta feita em plena avenida, sem que venham carros, pois claro, e ser uma pessoa normal para as pessoas que se cruzam comigo nesse momento. Uma dessas pessoas levou choque dum pombo desvairado, fez uma careta rente ao susto, e assim se lhe desviou a atenção do meu gesto hediondo.
E não percebo porque não posso falar da árvore amarela sem me envergonhar.
E não percebo porque não posso falar da bicicleta bê de biragem sem ver esgares complacentes.
E não percebo porque me sinto estúpida, aquém, ultrajada, tudo isto porque sou assim.
E não percebo porque não posso esparramar-me em mundos que afinal até existem.
E não percebo, a sério que não percebo, já que os meus mundos efetivamente existem.
E não percebo porque tenho de usar o exagero.
E não percebo porque percebo que não sei escrever.
E não percebo porque não deixo de escrever se afinal percebo que não sei fazê-lo.
E não percebo porque não sou uma pessoa normal perante as pessoas normais.

Outono

Quando andei com a mania de dizer no blogue que o outono também floresce, o primórdio desse patamar foi por ter visto dois buracos no lancil da avenida de onde saem plantas de folhas arredondas e vigorosas. Vigorosas porque são jovens, nasceram há pouco, é outono e no outono a natureza também renasce.
Para tirar uma foto às lindas plantas terei de me pôr em risco, no meio da movimentada estrada. Não dá. Ou seja: dá. Subo para o passeio e inverto a máquina.

Natal

É Natal nos espaços comerciais, já há luzinhas pisca-pisca e artigos com azevinho desenhado, bonecos a fazer de Pai Natal e renas e bonecas de tranças. Tudo muito lindo e brilhante. É uma paisagem que transmite felicidade, só por dizer que não me alegra mas é porque (suprimi o 'eu', urras) não quero, gosto de ser triste para poder continuar a escrever no blogue. E, logo mais, quem sabe, vai daí, conseguir, afinal, adiantar a escrita doutras nuances. A gaguejar com vírgulas já eu (eu não se escreve, é abominável!) estou. Bom indício.

Fuças

Fuçasbuque. É duma grande estranheza que eu ouça o que já li nos posts do fuças. O jovem cavalheiro chega aqui e diz que já não consegue sintonizar a estação de radio tal e que está cheio de pena pois gostava muito de a ouvir. Tento relevar a questão ao pobre rapaz, alegando que talvez tenham pouca audiência e sem ouvintes as radios descambam e desaparecem porque a publicidade é que paga aquilo tudo e se não houver gente a ouvir a publicidade e a comprar o que é ouvido...
Pronto, é assim: o que eu queria dizer é que é estranho ouvir coisas que já li, há uma linha qualquer que separa as pessoas reais do mundo virtual e quando essa fronteira desaparece é estranho. Eu já tinha dito que era estranho...? Então é isso.

Realidade

A farda da menina da clínica é verde.

Não combino a farda com o relvado que ela atravessa para não usar a imaginação. Nem digo que a farda é verdinha, verdinha, qual alface fresquinha para não ir buscar o alter-ego e a mania de exagerar.

Realidade

A dona Filomena passou o café e agora já não vem para estes lados. Mas mesmo assim lá de longe a longe ainda vem de Carnide para ir à pedicura de sempre.

Ida e vinda

Afinal fui ao outro lugar da musa, o que não tem bolachinha nem pau de canela, o que tem o café menos bom. Senti falta deles todos.

12:40

São vinte para a uma. Não tenho rascunhos, acabaram-se-me. Sinto-me esquisita. Ontem deixei os posts de domingo 'dentro' do blogue, como se fossem rascunhos, só que não são, logo à noite seleciono-os, clico no publicar e lá vão eles para a blogosfera. Sinto-me esquisita. Há pouco disseram na Radio que as mulheres são mais sensuais no inverno porque qualquer pedacinho de pele que mostrem, meu deus... Então é isso, ontem escondi-me para ser sensual a escrever, para parecer sensual no blogue. Sinto-me esquisita. Daqui a nada vou ao lugar da musa, a ver se trago coisas escritas nos papelinhos toscos. Coisas reais ou da imaginação, coisas rudes, coisas fofinhas, tanto faz, não sou esquisita. Sinto-me esquisita.

3513

Comiserar existe. Mesmo. Oh glória terrestre. Como me lembro? Não sei. Aparecem palavras. Pipocam. Não sei. Ou então sou mesmo boa nisto de escrever. Afinal.

Felicidade

O senhor Tomé está feliz, a vida corre-lhe bem. A vida corre-lhe melhor, quero eu dizer. Parece tão feliz que dá pena. A sério, dá pena. Vejo-o tão feliz, tão feliz, tão feliz que comisero.

Querido Diário

Para escrever, o que mais importa é o sentimento. Um qualquer, não importa qual. Dito assim, as duas frases em conjunto, até parece que o sentimento não importa. Não importa qual o sentimento e o que mais importa é o sentimento.
Cá pra mim isto tem um nome qualquer ao nível da escrita, ou então é mesmo parvoíce minha.

Tenho andado a ver se escrevo...

Meninice

As meninas pequeninas
As mãos passeantes
Nervosas e cambiantes
A menina pequenina
Gostava das mãos
Da menina pequenina
Não sabia porquê
Dizia que lhe dava gosto vê-las
A menina pequenina
Ficava feliz com a alegria
Da menina pequenina


Gestos

São fugazes. São tristes. São bruscos. São destemidos. São felizes. São nervosos. São lentos. São temerários. São mimosos. São rudes. São... Tudo. Tudo.

Não sei

O ti Manel andava por ali a montar garrafas em cima umas das outras, abrindo e fechando a porta mas poucochinho, um dia a seguir ao outro. O ti Manel morreu. Agora, o substituto escancara a porta e dá para ver o interior do armazém. Vê-se parede, sol, sombra e arbustos.

Querias (este 'querias' sou eu a falar comigo mesma e não com o leitor) ver a realidade? Aí está ela. Crua.

Ao telefone

Fui vítima dum estudo de mercado via telefone.

«Tamos aqui a fazer um questionário acerca da dor e tamos a falar das causas da dor em Portugal e tamos a fazer o questionário entre as pessoas com mais de sessenta anos ou mais que isso e tenho o prazer de tar a falar com uma senhora pra que idade...?»

Desmanchei-me a rir na cara do homem. Quer dizer, no telefone do homem.

«Tou um bocado longe, tenho 45.»

3508

Dei a cheirar o livro que ando a ler em casa (A Fé de um Escritor, Joyce Carol Oates) à cadela e ela desviou o focinho. Pensei 'olha, o cão não gosta desta autora, deixa lá experimentar com outro livro'. Peguei noutro livro, mostrei-lho e ela desviou o focinho outra vez. Mau maria... Repeti o gesto, desta feita com uma das coletâneas em que participei. Nada, toca de o bicho desviar o focinho para o lado como se os livros cheirassem mal, mesmo os meus livros.
A minha cadela não gosta de ler, só pode. Atente-se nisto: não é que não saiba ler, não gosta.