Gina, a mulher que tem um blogue
terça-feira, 19 de novembro de 2013
O olhar
No livro que ando a ler lá por casa (A Fé de um Escritor', Joyce Carol Oates), a dada altura a autora refere que tem o seu ateliê tão envidraçado que pode observar a paisagem sem barreiras e se detém muitos minutos nessa observância.
Tenho um lugar assim. Vejo a rua. Pessoas passam. Sempre diferentes. Se são as mesmas pessoas então não passam da mesma maneira ou então não as vejo da mesma maneira. Há uns anos despejei em vários posts dezenas dessas visões por mim iluminadas.
«o bêbado... não caminha, ondula... parece ele que está em alto-mar no meio de grande tempestade... e está... ou vai estar quando lhe chegar a sobriedade...
o senhor doutor ali do centro de saúde que, assim de raspão, o que salta à vista é a total ausência de pescoço...
a mulher que quis cobrir os cabelos brancos e os pintou de... cor-de-laranja... sempre disfarça qualquer coisita e assim até continua a conseguir virar cabeças masculinas (e as femininas também) à sua passagem...
o senhor que espirra três vezes seguidas por causa do pólen que anda no ar devido ao corte do gramíneo...
a velhota baixinha e atarracada que mastiga a língua permanentemente e diz à laia de feito revelador de um elevado grau de bravura, que já matou sete...! sete maridos...!!!
a rapariga que daqui parece ter os ombros, a cintura e a anca, tudo da mesma largura, quer dizer... se calhar os ombros são um nadinha mais largos que a anca mas ao passar na rua as cabeças masculinas lá seguem o seus movimentos... o que prova a minha teoria de que os homens olham para toda a porcaria...
a menina recentemente doutorada que, por isso, mudou radicalmente de tipo de indumentária - passou de top de alcinhas e calções, para fato calça-casaco (vermelho na maioria dos dias) com camisa branca, cujos punhos e colarinho a mãe, sim é a mãe que tem que pôr de molho em descorante raposa para que continue tão alva como quando a comprou, não vá a filha doutora fazer má figura lá no escritório...
uma senhora que em sentido figurado se podia dizer que parece um boneco sempre-em-pé ou então um barril daqueles de vinho - toda ela era ganga justinha ao corpo... que maravilha de mulher... hummm... se ela caísse era daquelas pessoas que caía redonda, ou então... não caía...
um jovem de t-shirt de cavas largueirona, boné com a pala para trás, brinco brilhante na orelha, um ar de rufia e andar à "macho que já sabe dar uma queca mas a única que deu foi a uma cota com as carnes descaídas ali para os lados da rua de s. nicolau e ainda teve que pagar"...
um velhinho que arrasta os pés com passos muito rápidos e muito curtos, parecia que ia estender-se ao comprido a qualquer momento, o incrível é que o desiquilíbrio era o que evitava a queda - fato cinzento às riscas brancas e chapéu a fazer lembrar o tempo da sua juventude... deixa ser... sempre protege deste sol tão quente...
um grande cromo aqui da rua - colete de caçador, boné à alentejana que levantaria da cabeça educamente se me tivesse visto, e seus óculos de lentes enormes e armação tão brilhosa que difunde raios de luz quando em contacto com o sol directo...»
Antigo Blogue, setembro de 2008
Rascunhos
Rascunhos de novo. Pois é. Tenho andado a pensar no memorial, no blogue e na junção dos dois. E dá em nada. Nunca estou bem. Podem dizer 'toda a gente é assim' que eu digo 'não é nada'.
Porta a porta
Não interessa que as clientes sejam estrangeiras e só falem inglês connosco e nós com elas. Se forem visitadas por mim e pelo meu colega depois do expediente com o intuito de lhes mudar a fechadura de casa, a curiosidade delas será igual à curiosidade de qualquer cliente português. Querem saber se somos marido e mulher, onde moramos (devido ao adiantado da hora) e se temos meninos ou meninas e que idades têm (não vamos estar em falta devido ao adiantado da hora).
A curiosidade e o raciocínio básico do ser humano não têm idioma.
Que somos marido e mulher é evidente por demais.
O lugar onde moramos parece muito longe à maioria das pessoas.
As idades dos ricos filhos descansam as pessoas.
Ricos filhos
Rica filha e pai discutiam se havemos de dar petiscos à cadela enquanto tomamos as refeições ou então não. Rica filha é totalmente contra e manifesta-se perentoriamente, pai condescende e diz:
– Coitadinha da bicha, sempre queria ver se eu te mandasse para a cama sem jantar tu ias gostar.
Vira-se de lá o rico filho e desmancha tudo com esta:
– Vocês parecem um casal de divorciados a discutir por causa dos filhos.
Rica filha
– Mãe, tu não sabes o que me aconteceu noutro dia... Não me apeteceu ver um filme, mãe. A sério, eu estava ali em frente à televisão sem vontade nenhuma de ver o filme...
Lá expliquei à adulta que tinha à frente que o facto de antes venerar a tv e agora nem por isso é porque a vida é mesmo assim, o que até é giro, já viste andares sempre à cata do mesmo, a viver o mesmo, a ver o mesmo? Ganda seca, não?!
Rico filho
O rico filho lá anda na sua ocupação laboral e provavelmente temporária: repõe brinquedos nas prateleiras dum hipermercado das redondezas. Diz que já se atualizou com os brinquedos de agora, ouvi-o noutro dia a tirar impressões com a mana acerca das novidades ou do que era do tempo deles e já não se vê.
É giro vê-lo fardado...
Caíram uma série de etiquetas do bolso das calças quando as manuseava.
- Ó André, qual é o brinquedo que custa um euro e quarenta e nove…?
Ricos filhos
Há que tempos não escrevo dos ricos filhos. Houve uma altura em que era frequente, depois deixou de ser, sem que saiba porquê. Vou escrever deles.
Havia esquecido esta parte
Quando a minha mãe ligou eu quis saber que tal vão ela e o meu pai.
- Oh, olha filha, eu já nunca estou boa e o pai está só mais velho!
- Oh, olha filha, eu já nunca estou boa e o pai está só mais velho!
Do lado de dentro do balcão
Deixei entrar um cliente para dentro do balcão, era estrangeiro, queria ver as coisas de modo a poder apontar e assim a gente entender-se melhor e mais depressa. Deixei-o entrar porque pediu licença, tudo nele me pareceu inofensivo. E era. Enquanto puder confiar nos meus instintos...
Do balcão
Uma cliente queixou-se:
«O meu marido põe-me à procura das coisas pra ele e quer um parafuso pra isto aqui e eu acho mal, chateia-me, acho que os homens põem a gente à procura e nós mulheres não percebemos nada de parafusos.»
Não curti o 'nós mulheres não percebemos nada'. Não ponho o caso nos parafusos, ponho no não perceber só porque se é mulher. Quando não percebo nada, e obviamente falo de/por mim agora, e falo de/por mim porque ela me incluiu no grupo quando disse nós, não é por ser mulher que não percebo, é porque não percebo e pronto.
Dias de um Ginásio
Ela perguntou-me como era algo e etecetera & tal. Respondi que de momento era pesaroso. Ela ficou muito séria. Creio firmemente que a seriedade súbita apareceu devido ao adjetivo que usei. Não tenho nada de andar para aí a falar de modo diferente, espanto as pessoas, ninguém me quer. Porém, falo pouco, escrevo (talvez) muito, logo... Acontece assim.
Preciso das pessoas, a sério, preciso de falar com pessoas, gosto de estar com pessoas, a sério que gosto, mas aborreço-me rapidamente.
Dias de um Ginásio
Olá, Gina, como está?
Pergunta a simpática rececionista.
Absolutamente fantástica.
Respondo eu. A rececionista ri-se e faz hum.
Sempre quero ver se alguém me desmente.
Desafio, sem pudor.
Ora nem mais!
Exclama o professor de musculação, aquele que tem mais mamas que eu. Tem três. Não, estou a brincar, parecem duas, como eu, mas são tão grandes que fazem repuxo na camisola.
Dias de um Ginásio
A gente agora vê pestanas longas e escuras, glúteos arrebitados, mamas bestialmente grandes e fica-se a pensar que é tudo falso. Mas não. Nada disso. Às vezes pode ser que as pessoas em questão tenham sido agraciadas naturalmente, que a Natureza é capaz de produzir beldades ao nível ocular e/ou muscular e anatómico, e também pode ser que as mamas grandes se devam a uma gravidez recente...
Super
Às vezes a gente vê-se obrigada a dar atenção à superstição. Hoje de manhã andei toda feliz porque já não tinha aquilo há uns dias e resolvi extravasar e partilhar para não estar sempre a debitar as merdas do costume. Vai daí, à tarde, pumba, coiso, cá está a porra. Aquilo. Até parece que não se pode falar de questões felizes, raios partam isto.
Rascunhos
Olá, bom-dia. Rascunhos. Escrever é escrever e pronto, não tenho nada de andar para aí a chafurdar em parvoíces, não tenho nada de andar a escolher palavras para escrever 'bem'. Rascunhos. Tenho sempre rascunhos. Primeiro publiquei os rascunhos que ontem deixei pendentes. Muito embora não pareça, este é o primeiro post de hoje.
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