Gina, a mulher que tem um blogue

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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Diário

Prefácio
Publico hoje o diário das férias passadas. Copiei-o integralmente, eliminando as rasuras e algumas irregularidades que encontrei, quando considerei que estas últimas enfeariam demasiado a minha prosa. De resto, está tal e qual debitei no passado, desprovido de polimento, cru, tosco. Percebe-se, creio, o quanto inicialmente pousei nos assuntos do dia, perdida mas perseverante e, por isso, me detive em dispensabilidades literárias. Depois, não que tenha encontrado indispensabilidades literárias, mas encarrilhei na prosa, como é aliás meu costume, e fartei-me de ‘falar’, pouco me importando com isso de o meu discurso ser dispensável ao mundo literário, ou então não.


Lisboa
Rua Abade Faria (10h)
16/7/2015
Quinta-feira

Rua Abade Faria, pois, Lisboa. Estou de férias e, incrivelmente, estou, ainda, em Lisboa. É para beber o café. Daqui a nada já arrancamos.
Alcácer do Sal
11:38

Tenho preguiça de escrever à mão. Nos últimos anos habituei-me efetivamente ao teclado, ao facilitismo.
Cafezinho+empadinha de galinha numa esplanada cá do sítio.
Um pai brinca com os filhos aos polícias e ladrões. Estão numa mesa ao lado. O homem faz vozinhas e tudo, as crianças estão maravilhadas.
Torrão, 2 e tal da tarde
Almoço: feijão-frade, bacalhau assado na brasa, encimados por rodelas de cebola crua e tiras de pimento assado.
Odivelas, cinco e tal
Estou na piscina da ‘Albergaria O Gato’, no Alentejo.
Tive há pouco a ideia de escrever no blogue, no que concerne às férias, por tópicos. Tipo:
- pés de unhas pintadas de azul, em contraste, ou simplesmente porque condiz
- mãos, idem
- locais que visitámos, tipo a gente ao pé dos dizeres e isso, como há pouco na barragem
- praia, areia, pés, mãos, sentires
...
- eu na praia; olha eu na praia
- eu na piscina; olha eu na piscina
- olha eu na estrada, no carro, na cidade, em nenhures, no apartamento
- soltas; pontas soltas
Bom, acho que será assim o preparo do blogue, quando regressar.
20:17
Ah e tal, estou no restaurante cá do sítio, pertence ao hotel. Prato: carne de porco assada com castanhas. (e batatas e arroz) Muito bom. Fantástica, a junção de sabores.

Odivelas
17/7/2015
8 e tal da manhã
Sexta-feira
O dia amanheceu fresco. Já pingou e tudo. Pingos grossos, espaçados e curtos em termos de tempo, a chuva foi embora num instante. Agora ainda está o céu embrulhado.
Dormi mal, acordei cheia de dores. Na verdade já começa a ser corriqueiro, de manhã estou sempre pior, só por dizer que nuns dias não estou tão mal como, por exemplo, estou hoje.

Las Chapas
18/7/2015
Meio dia e tal (acho eu)
Sábado
Não sabemos as horas. Os telemóveis atualizam-se, creio que a máquina fotográfica montes de espectacular idem, se bem que não estou certa disso, e a box cá do apartamento rege-se pela hora inglesa, creio, e se creio, neste caso quero dizer que não estou certa. Portanto: é meio-dia e tal, creio, e ao que parece, por estarmos perdidos com as horas mas também cheios de fome, almoçámos às onze e qualquer coisa da manhã. Ah ah.
18:53
Bom, acho que o relógio da piscina está de acordo com a hora espanhola.
Experimento uma tremenda preguiça de escrever. Desconheço, claro, se estando noutro lugar, noutras circunstâncias, me sentiria mais ágil na escrita.
Tenho mais um tópico a desenvolver no blogue: a chuva. É que choveu no caminho até cá. Incrivelmente. Junto a Sevilha, estando 44º, sim, 44º, desabou uma chuva grossa e, vai daí, a temperatura desceu repentinamente cerca de 10º.

Las Chapas
19/7/2015
8:56
Domingo
Pois é, acordo cedo. Eram ainda sete e tal já eu estava acordada. Dei algumas voltas na cama, levantei-me, que já não aguentava mais, fiz o pequeno-almoço, comi, já tomei os comprimidos, um deles é para tomar em jejum, e comi e coiso. Enquanto engolia a água com o primeiro comprimido, observei uma senhora lá em baixo, na piscina. Durante sei lá quanto tempo, nadou e nadou nadou. Nada como eu, sem estilo mas com eficácia. Talvez, ou certamente, sem grande velocidade, mas a verdade é que chegou ao seu destino.
11:57
Estou no apartamento, tal como estava no escrito anterior. Acabei de trincar um dos grãos de café que trouxe de Portugal. É bom, é uma sensação fixe, digo: o sabor, que a textura é estranha, não se mistura com a saliva, jamais formará um bolo alimentar.

Las Chapas
20/7/2015
6 e tal da tarde
Segunda-feira
Estou na praia.
De manhã lá tive uma reunião chata. Infrutífera, claro. A dada altura pedi licença e saí. Vim cá fora e rebuscando na mala dei com o grão de café que restava, coloquei-o na boca e trinquei-o. Sabe a café, pois, mas a textura é desagradável. Já ontem tinha escrito neste caderno.
Se há bocado eram seis e tal, agora devem ser sete e tal
Fui já ao banho umas três vezes, presumo, desde que cheguei. Esta praia é magnífica: ondas pequenas e fracas, espuma pequena, enorme extensão de água com pé, quase dando a ideia de que se consegue atravessar todo o Mediterrâneo pelo pé, dispensando nadar até lá. Mas não, claro que não, somente a verdade é que é muito baixa, a água, durante muitos metros, mar adentro.
7:21
Tenho o corpo saturado de água: dois ou três banhos na piscina e dois ou três banhos na praia, isto na parte da manhã, repetindo os mesmo procedimentos de tarde. Todos os dias, desde sábado. Hoje é segunda… Socorro, parece que a caneta vai acabar… afinal, não.
Voltando ao assunto: é assim desde sábado, e depois ainda falta o banho em privado, oh céus.

Las Chapas
21/7/2015
16:04
Terça-feira
Então, pronto, coiso, cá estou. Estamos. No apartamento. A esta hora temos estado sempre aqui, afinal temos de deixar a digestão avançar sem percalços, não vá a água, em abundância nos últimos dias, não a deixar vigorar capazmente.
Ah, que saudades de escrever num teclado, no caderno, neste, ou talvez noutro, sei lá, dá-me cá uma preguiça, não é. É.
Entretanto voltei ao tom de escrita habitual dos últimos meses (, não é. É), ah ah.
Ontem a Ana Cláudia perguntou via fuçasbuque como havia de lavar roupa, e eu, vai daí, escrevi quase um testamento no teclado do telemóvel, contendo todos os passos a seguir e cada clique e até cada som que a máquina emite quando é posta a lavar.
São mais ou menos oito da noite, só por dizer que é de dia, que ainda é de dia
Estou na praia, entre aquela onde costumo pousar e a Niki Beach. Este ano não há as festas do costume na Niki Beach, sei lá porquê, às antas é coisa para acontecer somente em agosto.
Neste pedaço de água, há rochas no chão, em vez de areia. Um suplício para mim, sou incapaz de nadar e mergulhar à minha vontade, quando assim é, ainda que as rochas no chão sejam quase lisas, facilmente deteto alguma mais pontiaguda. Mas pronto. Coiso. Tenho medo.
Há crianças. Vá a gente para onde for, há crianças. Lugares sem crianças são lares de idosos. Nada contra os mesmos, claro, nem contra os ditos, mas só por dizer que dizem também grandes disparates e quiçá como menos graça.
Para aí dez da noite, agora. No restaurante, agora.
Aquele que fica mesmo por baixo do empreendimento. Podia fazer, agora, como faço no lugar da musa e pôr-me para aqui a descrever as pessoas que estão cá. Para começar: estão todas sentadas. Não estão nada, há um senhor com ar de dono deste espaço que se entretém, por assim dizer, com o abrir da porta. Entretanto já conseguiu os seus intentos, sendo que a porta está aberta e segura ali assim na base do enorme vaso. O espigão desse fecho está assente nessa base. Há dois casais, cada um na sua mesa, que aparentemente já finalizaram a sua refeição. Ou então não, sei lá eu, às tantas esperam o prato principal. Se bem que sejam dez e tal da noite, e ainda nem é noite escura, escura, mas já é noite, é o crepúsculo, pronto.
Estou toda contente, que já encontrei o meu tom, só por dizer que escrever à mão é uma canseira.
A estrela polar está ali, mesmo ao lado dum tronco de palmeira.
Já comi a entrada: gambas com abacate e quês. Bom à brava.
Ouve-se pontualmente uma espécie de coaxar, mas como aqui não há riachos, deve ser, ai a caneta, deve ser um ralo ou um grilo.
O tal casal
grilo, grilogrilo
grilo, grilo, grilo

GRILO!

Las chapas
22/7/2015
7 e tal, acho eu
Quarta-feira
Pois então tenho uma caneta nova que me ‘deu’ o senhor da receção, porque lha pedi emprestada e, pela cara que o bicho fez quando ma estendeu, creio que ma ‘deu’, ainda que eu reforçasse que lha devolvo (devolveria?) na sexta-feira.
Então pronto, comemos queijo Camembert panado, acompanhado de alface, rúcula, couve roxa, com uma tacinha no meio contendo doce de framboesa. Que mescla fantástica. Sim senhores, a ver se faço em casa.
Agora esperamos o prato principal: linguini com carne e mais não sei o quê.
Hoje também posso pôr-me para aqui a descrever os presentes. Há uma mulher que me olha insistentemente e sorri que se farta.
Interrompi a prosa para comer o linguini, estava bestial.
Mas a mulher loura, que estranho, é que se torceu toda para me mirar e sorriu e sorriu e sorriu. Fiquei tão aparvalhada que praticamente não retribuí espontânea simpatia. Estou a ironizar, colocando espontaneidade na cena, é que às tantas ela nem estava a ser espontânea, estava antes atuando premeditadamente, uma coisa encenada, vá, é puta, das finas, e quer cliente. É que está acompanhada dum gajo com ar mafioso, digo duma máfia boa (isso existe?!). Quer pessoal para o swing. Ah ah.
Ontem ia no grilo, quando a antiga caneta se acabou. Os seis grilos pequenos foram rabiscados esta manhã, numa esperança ansiosa de que a tinta ainda escorresse ao menos um pouco. Mas não. Vai daí, assim que pude, ‘gritei’ um grilo gigante.
oito e tal, agora, estou na praia, há pouco também, só por dizer que tinha esquecido de registar
Pois que ontem parei, forçosamente, no ‘grilo’. Ia escrever das outras pessoas que estava no restaurante, ia escrever que aquele tal casal afinal terminara mesmo a refeição, que vi chegar, pouco depois de a caneta perder o ‘pio’, aquele livrinho de capa rígida onde vem a fatura. É uma procedência, ou um costume, destes restaurantes assim como que mais virados para o requinte.
nove e tal, agora, estou então no restaurante do (quase) costume, é a terceira vez que aqui estamos.
Não temos saído de carro, na verdade ainda não saímos daqui, os dias têm sido iguais, não necessariamente maus, nada disso, qual quê. Piscina e praia de manhã e vice-versa à tarde, ou então ao contrário, sei lá eu.
Quando chegar a casa tenho de escrever um post onde exponho a conversa que tive com a Débora, de quando lhe contei dos vídeos que faço, ou fiz, e ela me perguntou se eu era como a cantora Sia, qua nunca mostra a cara por inteiro, usando sempre compridas franjas.
Há pouco, na praia, tirei fotos ao meu caderno, este, e à caneta espetada na areia. Depois espetei-a num emaranhado de corda que pertence a uma das bóias que estão presas nas estacas, caso seja preciso resgatar alguém. Quando o funcionário as veio recolher, que já eram horas, sete e meia, para aí, viu a caneta, exclamou algo em espanhol, tipo: ‘olha aqui uma caneta, que giro, vou pô-la no meu bolso’. E pôs. Enquanto ele se afastava tirei-lhe fotos. Fiz zoom e fixei o bolso. Não estão nada de jeito, mas pronto, fica o registo.

Las Chapas
23/7/2015
10 e tal
Quinta-feira
Um mar desta imensidão, o Mediterrâneo, e a gente sem poder chafurdar lá dentro por conta das alforrecas. Oh céus. Umas ondinhas pequerruchas, como eu gosto, e destemo, e o medo de ser picada a prevalecer sobre a vontade, o chamamento. Oh céus.
18:05, piscina, por isso tão precisa nas horas que são, foi só virar um tiquinho a cabeça e pronto
De onde estou sentada vislumbra-se parte das chaminés daquela casa branca e linda. É uma vivenda enorme que quando fiquei hospedada no terceiro andar, num ano anterior, se destacava imenso no meio da vegetação circundante. Tirei inclusive fotos (como hoje) e depois cortei e melhorei uma delas, acabando por colocá-la no cabeçalho do blogue. Agora penso que, quiçá quando chegar a casa pesquise a foto de então e inclusive o texto, ou os textos, que escrevi em relação a estas duas chaminés.
Pois é, em tempos idealizei fazer vídeos lá em casa, onde apresentaria os utensílios de cozinha, a bijuteria e as jóias, os óculos escuros, as roupas, o armário das recordações e talvez um sem-número doutros pertences que agora não recordo. Hei-de fazer quando chegar a casa. Aqui ainda não fiz vídeo nenhum, muito embora tenha idealizado fazer. É que há alguns pontos contra: pouca capacidade nos cartões, que me esqueci do cartão ‘grande’, comprado propositadamente para esta viagem, o gastar pilhas e/ou bateria rapidamente e estar constantemente acompanhada.
9 e tal e coiso, no restaurante
Este ano temos jantado sempre fora, este restaurante é fixe. Não é muito caro, tem pratos dalgum requinte e o serviço é bom. Bom, quer dizer, um dos empregados é um bocado snob, mas pronto, na verdade não é notória qualquer, sei lá, diferença no tratamento que dá cá aos pobrezinhos. É quanto baste. Este restaurante tem o costume de oferecer um licor aos clientes, quando à despedida, ou seja, trá-las ao mesmo tempo que a fatura. Cai sempre bem, não é. É. No primeiro dia foi Limoncello, no segundo não sei o nome daquilo, mas queimava a garganta pra caraças, segundo informação do Luís (ó Luís…) é tipo um shot, há que beber dum trago só. Daí ter como que queimado a garganta. No terceiro dia foi um Baileys, e hoje… Pois é, vamos lá a ver o que será, que de momento aguardo a entrada: queijo de cabra e pera não sei quê e nozes. Hum.
Já comi.
Ideias tenho eu. Digo: para escrever, mesmo estando de férias, aparentemente não fazendo nada, ou fazendo, mas todos os dias as mesmas coisas, quase sempre ao mesmo ritmo, no mesmo lugar, durante o mesmo espaço de tempo. De manhã: praia, depois: piscina. à tarde: piscina, depois: praia. Porquê? Porque as manhãs são mais frias na piscina. E de tarde, porque inverso as idas? Porque o sol desaparece cedo do recinto da piscina e na praia está-se bem até de noite, quanto mais de dia, ora essa.
De postre: tiramisu, que es casero. Gracias. O prato principal foi pene com frango e espinafres. Tão bom.
Os espanhóis não têm feminino para dois, a gente tem – duas. Ah ah. Os espanhóis usam todavia, ademais e tampouco na sua linguagem corrente. Eu também, mas na escrita. Apenas. A bem dizer, por vezes até evito, receando parecer presunçosa e isso assim, tipo a querer mostrar que sei palavras e quês. Mas, às vezes uso, oh se uso.
O moço daqui, o snob, deitou o olho ao caderno, quando pousado na mesa, mais ou menos desleixadamente, e com tanta atenção deve ter visto o galo de Barcelos e lido ‘Portugal Story’, que é o que está na capa. Vai daí ficou montes de curioso com o que estará escrito cá dentro. Não ficou nada, ora essa.
Na piscina, há pouco, creio que de manhã, uma senhora ficou-me a olhar um pedaço de tempo depois de eu ter guardado o caderno. Eu sei ‘miga, sou um ser humano especial, fora de série, espectacular. Mas obrigadinha na mesma, ora essa.
Ainda não contei do senhor do bar, caraças. É episódio a não esquecer.
Yeger Mayster, o licor de hoje, ou seja, repetido. Parece que se escreve Yager Mayester, se não for, julguem-me, vá.

La Pausa? Huelva? (não sei...)
24/7/2015
2 e não sei quê da tarde
Sexta-feira
Então, ora pois, estou num paradeiro perto de Huelva, já no (bom) sentido de Portugal. Tenho saudades dos ricos filhos, do cão e da casa. A bem dizer tenho até saudades dalguns tarecos. Parámos aqui, não para comer, mas para esvaziar as bexigas.
A minha caligrafia é horrenda. Neste caderno. Oh céus. O que leva a isto é a pressa e a preguiça. Pressa, não vão os pensamentos voar; preguiça, por me ter já habituado às facilidades, e rapidez, dum teclado de computador.
Pomarão, 3 da tarde, é o que diz o relógio deste restaurante
Estamos num dos princípios de Portugal. Vamos comer bochechas de porco, que já chegaram à mesa, e, quero dizer que assim, vistas as coisas de princípio (além é Mértola); (que giro, três és, três acentos) é como que o verbo, que no princípio era o verbo, vai daí verbo, escrever. Ah ah.
Hotel ‘O Gato’, seis e tal ou lá que é, Odivelas, portanto
Então pronto, cá vim parar, ao ponto de partida.
(cinco e quarenta e três, afinal)
Que saudades dum teclado, oh céus. Venho no caminho, triste, sem o querer. Não chamo a tristeza, que é lá isso, só por dizer que a proximidade do lugar soturno dá-me forte na cabeça. Estúpida que se farta, esta minha cabeça. Até já vinha a idealizar, ou a escrever (com a cabeça, como é meu incessante costume) que as férias serviram para perceber que afinal viver é bom, qual golpe na carótida, qual quê. Mesmo sem eu querer, o estilo mórbido, ou tolo, sei lá, já se introduziu. Ideias tenho eu. Falo de como abordar as férias no blogue. A ver vamos se quando chegar o momento a imaginação se introduz também. Pois. Girassóis, não posso esquecer, os espanhóis, na praia, são como os girassóis, que vão rodando por modo a defrontarem, todavia, o sol. Que destemor. Que bravura. Defrontar o sol.
4,7 debaixo da ponte. Ah ah. Não sei de onde até Huelva km 47, saída 48. Ah ah. Avenida del V Centenario.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Há um ano foi assim
|tão igual aos dias que correm hoje, afinal...|

segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

Coisas
Escrever é perigoso mas também há perigo em deixar de escrever, refiro-me ao facto de o mundo se tornar absurdo e desinteressante. A vida e as pessoas, quero eu dizer, e portanto lá se vai o deslumbre de viver a vida e de observar as pessoas.
Escrever faz-me imensa falta, afinal. Que porra.
Os escritos abaixo não pertencem ao dia corrente, escrevi-os, há poucos dias → uns e há muitos dias → outros. Não fiz as publicações do costume no blogue porque entretanto me fui desabituando deste tipo de exposição e deixei de estar preparada para isso.
Hoje estou um tanto ou quanto apática e portanto não há mais nada a dizer. (Escrever.)

A propósito
(É claro que vem a propósito.) Há dias encontrei um tom de escrita semelhante ao meu. Caraças pá, afinal onde para a originalidade, a voz única e inimitável?! Alguém a possui?! Não senhores, ninguém é original, descobri isso há muito tempo. Mas, até que ponto é agradável encontrar semelhanças na escrita, sobretudo, até que ponto gosto de me parecer com uma escritora, uma escritora com décadas de experiência e meia dúzia de livros editados? Ou não gosto?!
(Não gosto, não...)

Ainda cá venho
Faltou-me a coragem para falar em manancial mas não em cascata, antes um jato generoso, tipo um caudal que a natureza oferece, vá, e acrescentar temperatura amena e confortável à sensação que descrevia. E de quando estas coisas pedem licença para se instalar e eu concedo e de quanta maravilha há no recebimento de sensações boas - que são mesmo boas - e de sensações más - que afinal são boas.
Faltou-me a coragem para devastar o assunto, esmiuçá-lo tanto que o adulteraria, parecendo então que falava doutra coisa, porque é isso o que acontece sempre que exagero na escrita.
Mas siga a vida, que isso são ideias sem novidade... Certamente já muita gente as explorou literariamente. Paciência, afinal as ideias estão todas usadas, algumas comummente abusadas, tampouco pretendo coisa alguma que não seja vomitar ideias e pensar que me sinto aliviada com isso, mesmo que o não esteja.

...
'Onde andará o meu tom de escrita?', pensei eu, logo de manhãzinha. 'Ecos que projeto no ecrã do computador e isso assim, onde se terão metido?!'
Mantenho o tom comigo, na verdade nunca o perdi, não o dei acabado, apenas me economizei para forjar a mudança – deixar de escrever -, garrotei as veias literária, cronista e memorialista. Esta última, a mais vívida e presente, foi tão difícil de estancar, sofri horrores para não fazer caso das pipocas a estalar na minha cabeça. Ui. Ui. Ui. Que horror.
Tenho estado mais ou menos parada, a fazer de conta que a vida é morna, a rececionar calmamente as sensações boas e sem queixas as sensações más, a fingir que sou humilde e recetiva e vivo esses momentos bons e maus num frenesim contrito.
A ideia primária era conseguir ser uma pessoa normal, e fui-o durante alguns minutos e nuns certos dias. A pessoa normal que desejei ser é alguém que não escreve num blogue num registo tão pessoal. Mas no fim, hoje, agora, lá porque deixei de escrever não me sinto mais capaz ou virtuosa e/ou outras coisas giríssimas para a gente ser, qual quê. E deixei tanto por escrever...
Não obstante, do morno hiato, sem esconder que o mesmo tem o seu quê de aprazível, ficou-me isto:
«Quem disse que a mornidão não presta pra nada? Porque não viver lassamente? Porque não viver sob o mote do 'tanto me faz'?»

Obra amorosa
Ela leu. Ela não leu tudo. Ela disse que a impressão é muito boa: o papel, as fotos e tal. Hum, ok, pronto, vá lá, daqui depreendo que escrevo maravilhosamente e portanto posso continuar, faço falta à arte literária e esse tipo de coisas. Quando morrer vou ser uma pessoa fantástica. O póstumo, esse tormento, oh céus quanta gastura me dá o advérbio postumamente... É assim

...
Ela disse que gosta muito de conversar. Eu ia dizer que não gosto mas retive o comentário, porquanto não é de todo verdade e ademais este tipo de afirmação, não obstante perentória e racional, me transforma numa vítimazinha salobra.
Depois fiquei triste. E sozinha.
Bem sei que com as duas últimas afirmações já vesti a pele de vítimazinha salobra sem que seja essa a minha intenção, nada disso. Escrevo o que escrevo e como escrevo porque me é necessário contar alguns sucedidos e umas quantas emoções. Chamam-lhe escrita catártica. Seja. Se eu disser que escrevo para desvalorizar as minhas questiúnculas e o meu sofrimento, creio que não fica tão bonito como dizer que escrevo catarticamente. 'Escrita catártica' soa muito bem.

4
Estivemos os quatro em conferência como há décadas não o fazíamos. Viajando até ao passado noto mudanças várias: agora exponho questões e falo das histórias de outrora, enfatizo-as com o 'não te lembras?'. E eles lembram-se. Ah, como é boa a minha ênfase...

Rede social
O fuçasbuque está cravado de fotos com pessoas em piscinas, de biquíni fluorescente, em festarolas noturnas, com um copo na mão que alegre e simpaticamente dirigem à lente do fotógrafo, como se brindassem ao olheiro, e, ainda por cima, ostentando um bronzeado do caraças. Que merda.

2882
Capicua. Algures por aí anda o post dois; oito; oito; dois e devo dizer que este é o post vinte e nove; vinte e nove, que também é um número giro. Já baralhei esta porra e portanto não se fala mais disto.

1933
80 anos, 80 flores com acompanhamento verde, fizeram um volume graaaande, menina.
...
Nem mais nem menos: deram para encher 3 jarras graaaandes, menina.
...
Parecem rosas mas não são, menina.
...
São assim abauladas. Não, não são nada túlipas, menina! Ó menina, são outras flores que não sei o nome.

À despedida
Adeus escondidinha.
Adeus senhor Tomé.
Xauzão.
Bom descanso senhor Tomé.
Até amanhã.
Até amanhã.

...
Não se fala a sós para espantar a solidão, qual quê, fala-se para si mesmo(a) por conta daqueles assuntos inconfessáveis.

Sentir
Sinto um formigueiro na moleirinha. Devo estar muito nervosa sem dar por isso.

Ismos
Não sabia, mas vendo sets. Sério, vendo sets. Um cliente pediu que lhe vendesse um set e efetivamente vendi.
Por estes dias dava-me jeito que me viessem falar em italianismos mas acho que não é lá muito habitual por entre as gentes deste país de portuguesismos...

...
Por momentos tive o estaminé guardado por um chefe da Polícia à paisana. Mostrou-me o crachá, não por gabarolice, mas para eu descansar.

Idades
Avaliando o aspeto da cliente, e ela dizendo que a fechadura foi o pai quem tratou de a mandar colocar, fiz uma dedução altamente certeira: aquela casa é trancada com material do tempo da minha bisavó.

Idades
Gosto de mulheres mais velhas.
A minha mãe
A minha sogra
A dona Lurdes
A dona Adelina
A dona Alda
A dona tal e coiso
A dona Genoveva
A dona assim e assado
A dona Marília...

Idades
Diz que é velha gaiteira mas há-de usar vermelho até morrer. Não se importa com o que digam por aí acerca dela, podem-na chamar assim à vontade, não quer saber.

A pipoca
Esta madrugada pipocou uma frase na minha cabeça…
'A coisa mais estúpida que fiz até hoje foi criar um blogue.'
… Estupidamente inconsciente, isto de me ter metido num lbogue... Ai perdão, blogue.

É isso
Sou muito boa a fazer e a ser algumas coisas. Só por dizer que não é nada que me permita ganhar muito dinheiro ou parecer uma pessoa à maneira.

Sai daqui, ´miguinho, vá...
Pus em prática os meus dotes de espantalho horripilante. Sou tão competente.

Amarelo
Tenho as unhas amarelas. Não é doença, é verniz.

Dois pontos
::tê cê::
::cê tê::
::tê pê tê::

Do verbo acrescentar
Devia ter mencionado o trajeto. Alongo-me agora: o que eu queria dizer é que, em percorrendo o trajeto, posso viver à mercê. Fico lá, imóvel, recebendo. Viverei na mesma. Quietinha. As minhas mexedelas na vida não são afagosas, não.

Do verbo mentir
Se inventarmos uma mentira e a repetirmos incessantemente, essa afirmação tornar-se-á verdadeira para nós e para quem nos rodeia.
Assim até parece que qualquer pessoa pode mudar o mundo. Bah.

Do verbo envaidecer
Uma senhora tropeçou numa pedra porque me admirava e/ou invejava o passo.
Um senhor tirou o cigarro da boca para abri-la de espanto, quando não deixá-lo-ia cair com o assombro da minha beleza.

Do verbo andar
Não me importo que os cavalheiros se inclinem para mim aquando do cruzamento de nós dois. Desde que cheirem bem.

Do verbo percorrer
Vejo-me a ir.
Vejo-me a vir.
Os caminhos não são sempre os mesmos.
Os caminhos são os de muitas vezes.

Da enormidade
Vendi cinquenta borrachinhas a um polícia grande. Grande. Por isso tantas borrachinhas. Cinquenta. Para cobrir tudo. Quando não o bicho ficava desprotegido. E ninguém gosta dum polícia grande e desprotegido. E grande.
::Eu::já::tinha::dito::que::o::polícia::era::grande::não::já::?::

Saudades
Tenho saudades da perversa de mim. O pecado faz-me falta. Ser fofinha e amorosa cansa-me que se farta.

...
Vi a escritora. Sorriu-me. Que fofa. Devia ter-me cumprimentado, mas pronto, paciência. Mesmo assim é uma fofa.

...
O homem dos olhos espantados tem a voz muito rouca. Assim tipo Bon Jovi e isso.

Agosto
Em agosto de dois mil e treze aconteceu pela primeira vez eu rubricar a minha folha de ordenado. Tenho duzentas e dezassete folhas assinadas com o nome inteiro e este mês deixei-me de merdas, que estava com pressa.

Agosto
O meu calendário está todo assassinado, círculos vermelhos rodeiam os dias mais importantes deste mês.

De abalada
A senhora do tê érre vai embora deste quarteirão no fim do mês. Que já não gosta nada disto. Que está farta de sofrer com pessoas estúpidas. Que não abala sem se despedir. Que vem cá dizer adeus. Que não esquecerá a gente todos.

Flash
A minha máquina tem um programa que permite fotografar assuntos na obscuridade, inclusivamente passa em rodapé a informação com um exemplo - céu estrelado - e adverte que se use sempre o tripé.
Há algum tempo que um objeto que me encanta pela sua antiguidade mas que se encontra efetivamente num lugar muito escuro. Resolvi experimentar o tal programa mas não fazendo caso da advertência, queria lá eu bem saber dessa mariquice com três pés e blás.
Vai daí... Ficou disforme. Ficou luminosa. Mas ficou gira.
Ficou gira porque não fico expectante em relação aos meus cliques, clico há tempo suficiente para saber que as fotos que ficam lindas quando escarrapachadas no ecrã do computador, ficam-no por um conjunto de situações que coincidem e fazem belas fotos, e sobre as quais não tenho saber. Calhou assim... Por isso ficam sempre giras, as minhas fotos.

...
Têm pírcingues, 18 anos e sotaque do Norte. Se fosse daqui por um mês seriam universitários caloiros, assim não sei que diga.

Indignação no lugar da musa
A bolachinha vinha hermeticamente embalada mas estava ratada. Não se faz.
O cartuchinho trazia não um mas dois paus de canela. Oh céus, quanto desfrute.

Diálogo alheio no lugar da musa
Não atendeu mesmo agora uma miúda muita gira que é a minha mulher?
Acho que desceu, tinha uma lista de livros escolares na mão, não tinha?
Uma lista?! Ah, ela arranja sempre coisas para fazer...

Encontro surpreendente no lugar da musa
Bicicleta estacionada mesmo à porta. Mas não é a bicicleta bê de biragem. Tenho saudades. Um poucachinho, ao menos, de saudades de tudo o que envolve a questão.

Términus
Terminei de ler a coletânea 'Beijos de Bicos'. Não que tenha adorado a leitura, nada disso, mas pronto, não me vou pôr para aqui a dizer mal dos escritores e apresentar a mediocridade literária dalguns deles e mais não sei o quê, porque para dizer mal, então que o diga da editora, que – é mesmo verdade - não revê os textos nem a formatação, e há contos que estariam inteligíveis se tivessem tido esse apoio por parte da editora.
Adiante.
O mais importante é que escrevi o meu conto 'Dias de uma Grafómana (pouco) Amorosa' e está escrito, publiquei-o e está publicado, em papel, com cheiro, com palpabilidade, que a gente também se apaixona pelo que lê e apaixona-se mais e melhor se puder cheirar e apalpar... E pronto, era isto.

Loucura
'De pouco todos temos um louco', dizia a t-shirt dele. Ele não tem um pouco de louco, não, antes tem muito, a loucura dele extravasa, percebe-se, nota-se, vê-se. É nervoso e indeciso, as mãos e os lábios tremem-lhe, como se estivesse extremamente angustiado. E está. É louco.

...
Escreve.
Escrevo?
Escreve!
Vou escrever.
Escreve.
Escreve!
Es.cre...ve!
Hum, ok, vá.

Olá bom-dia!
Precisei duma coragem imensa para abrir este documento, oh céus, mas rebusquei-a e por ora aqui me encontro. Estou que não posso, tal o esforço que fiz, toda eu tremelico. Vá, vamos lá que isto de voltar a preencher o blogue mais espetacular de sempre é coisa para não custar nada e nem apontar em papelinhos e refundi-los é a mesma coisa que atualizá-lo. Nem pouco mais ou menos. Olaré.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Abstrato

Sinto que devo escrever. Tenho de escrever. Como se escrever fosse muito importante. Bah. Que grande porra. A minha vida é um tumulto inenarrável.
4334. Este é um post de capicua, ah ah. Não deixei passar. Olha eu a importar-me com os números também, ah ah.
Toca na Radio a canção de amor mais triste que conheço. O vídeo vai estar lá para baixo, logo à noite tratarei de o pesquisar. Mas acerca da melodia: acho uma incongruência que uns acordes tão gementes emoldurem um amor feliz como o demonstrado no vídeo.
No parágrafo anterior devia ter escrito aberrante em vez de incongruência porque estava a falar de música e música tem a ver com berros. Por outro lado, e porque sim, gosto que se saiba que sou conhecedora da palavra incongruência. Incongruente. Incongruentemente. |Descoberto a posteriori: incongruidade; incôngruo.|
Eufélia tem uma amiga com quem se encontra todos os dias, bebem café e conversam durante horas. Só por dizer que a amiga não faz tanto caso da amizade assim, primeiro vai à praça aviar-se de fruta e legumes, só depois vem ter com a pobre Eufélia, que a espera desesperando. Eufélia, a entontecida; barra; expectante senhora, decide saber notícias e clica no número da amiga. «Está lá? Ó Maria, atão quando é que chegas?» A Maria responde que está a chegar, primeiro foi à praça. Qual notícias, qual quê, não tinha eu já referido que ela tinha ido primeiro à praça?!
Gislena anda na loja grande a mirar as prateleiras com roupa. Passo por ela e sussurro-lhe que compre pois lhe ficará bem de certezinha. Ela discorda, anda só a ver saias com bolsos, que lhe dão jeito para trabalhar durante o verão, para lá pôr o telemóvel e as chaves do carro, mas são todas muito curtas... E remata com um conselho pra mim: eu que veja a roupa e compre, que posso usar de tudo, sou nova. Eu, nova, ah ah. E ademais, usar de tudo, ah ah.
no chão da rua estava uma fita desenhando um coração pensei tirar uma foto mas entretanto desviei o pensamento daí e quando voltei a pensar no chão e na fita e no coração este tinha-se desfeito e não estou a pontuar este parágrafo propositadamente
O cliente entra e quer espuma para a cabeça, aqui não há a marca que pretende. Ah ah, espuma para a cabeça é champô, ah ah. O cliente entra e quer fita para a janela, eu: tome lá, ele: tome lá. A cliente entra e fica a olhar seriamente na minha direção durante quatro ou cinco segundos e finalmente realiza para consigo que esqueceu algo importante e vocaliza baixinho 'ai porra que me esqueci o que vinha buscar'. Espeta o indicador na testa e com esse gesto lembra o que quer: brocas, parafusos e buchas. O cliente entra e não diz coisa nenhuma e põe-se a olhar e a olhar toda a volta do estaminé, concluo rapidamente que é forasteiro. Por fim balbucia um inglês pior que o meu e eu que sou muito boa nisto de entender forasteiros que falem inglês pior que eu, entendo que ele quer uma ficha adaptadora de pernes estrangeiros para pernes portugueses. Quando chega a ocasião dos números queixa-se do preço e eu aproveito para fingir que não entendo quem balbucia um inglês pior que o meu.
No parágrafo anterior, onde está 'indicador', antes esteve 'indicar dor'. Escrevo erradamente. Sucessivamente. Já me lembrei montes de vezes de um dia fazer um post destes assim, longos e isso, onde não me corrigiria, onde apareceriam, além dos erros ortográficos e/ou de digitação, todas as interrupções que a minha escrita sofre ao longo do dia. Mas, há sempre um 'mas' e este é do caraças, aí é que não se entenderia o que escrevo.
O bolo de fim-de-semana vai ser de tangerina e não penso mais nisso. Tenho natas a terminar o prazo de validade, tenho tangerinas que me deu a vizinha Gislena, tenho ainda o que já deixei escrito na semana passada: nozes e abóbora cristalizada, e conto ainda não esquecer de usar um pacotinho duma mistura própria para fazer crescer imensamente os bolos e deixá-los bem fofinhos. Afazer.
Sonhei que comia mirtilos. Um gosto ácido na língua, uma espertina em todos os sentidos e a boca dum azul-cobalto lá por dentro, o suco escorrendo garganta abaixo, eu elanguescendo de prazer... ... Não sonhei nada, não foi assim. No sonho estava no corredor do supermercado, de roda da banca de frutos do bosque, escolhendo a caixa que tivesse os mirtilos mais sãos. Apenas isto. Impera comprar mirtilos, mas só para a semana.
Fui ao jardim outra vez. Antes tinha pensado: hum, está sol, sempre quero ver como estão as árvores e suas florinhas claras com veios avermelhados, se brilham ao sol, se há pingos de humidade nos ramos. Isto porque ontem estava de chuva, se bem que a chuva não se note nas fotos que publiquei no blogue. Mas entretanto toca de o sol se esconder, então: para tirar fotos hoje e fazer comparações com as de ontem e mais isto e mais aquilo ia dar em nada porque o sol estando encoberto, em matéria de imagens fotográficas, é muito semelhante à chuva. Sentei-me num dos bancos, o que aqui difere em muito do dia de ontem, aquela chuva toda encharcara os bancos... Pus-me a ver a paisagem, vivalmas passeavam, vivalmas e cães, contrariamente ao dia de ontem.
Ah ah, descobri que posso escrever o riso, ah ah. Ah ah, estou doente, ah ah.
Sinto-me impelida a falar do lugar da musa. Infelizmente não encontro ponta de interesse. Nem eu encontro interesse, hoje, tudo que lá vivi foi sensaborão.
O Tiago, que não é Tiago, tem fuçasbuque e de vez em quando apresenta umas coisas, noutro dia era uma selfie tirada num quarto andar com vista sobre a minha rua. E eu pra ele: olha a minha rua. E ele pra mim: a tua rua vista da minha janela. E eu pra ele: :):):) E ele clicou no 'gosto'. E depois calámo-nos.
O Miguel, que é Miguel, não tem paciência para o fuçasbuque, diz que aquilo é uma nojeira e uma patetice de tamanhão, as pessoas publicam quando acordam e/ou quando têm um dói-dói. Verdade. A relação presencial é similar. As pessoas dizem a que horas acordam e/ou quando têm dores. Ah ah, estou doente, ah ah. Um exemplo das comuns queixas: de manhã a dona Lurdes cumprimentou a Elisabete Maria, a esotérica, e vai daí, assim que esta pergunta 'como vai?' logo aquela desbobina 'cá vou com muitas dores mas vou empurrando e enquanto puder empurrar está tudo bem'.
O Miguel, que não é Miguel, disse que naquela hora aborrecida não era pra mim que estava a falar, que estava bruto mas não era nada comigo. Ok 'migo, deixa lá isso. O Miguel é gente boa, só por dizer que se impacienta com pouca coisa e com toda a gente, mais ou menos como eu, vá, mas em macho.
Há um arco-íris no céu, lá à frente, por cima dos prédios altos.
O dia findará não tarda. Tenho de arranjar uma saída airosa para este post compactado. Saída airosa é que não devia ser porquanto é termo que me cheira a chavão. Gina Maria, escreve tão lindinho quanto conseguires. Melhor: escreve ainda mais lindinho que isso.
Hum.
Como anunciado lá em cima, deixo vídeo amoroso que se farta e melodia condoída por demais, uma incongruência, portanto. Espera lá: às tantas o puto morreu e ela agora canta pra ele a recordar os momentos bons... Será?!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O poeta

No dia 6 de janeiro escrevi algures assim:

«No jardim. Fui dar uma volta ao jardim. A estátua está lá especada desde janeiro de 1968. Que era janeiro e que era 1968 já eu tinha decorado, só não recordava o dia de maneira nenhuma. Fui lá espreitar:19. Só não volto para tirar as fotos nesse dia vindouro porque este ano calhará num domingo e ao domingo não ando por aqui. Um dia desses vou lá clicar, que hoje a máquina estava sem bateria.
Há poças d' água e lama com fartura, tanto que me enlameei por andar nos carreirinhos do jardim, uma verdadeira gincana para descortinar o dia dezanove.
Atrapalhei um casal de namorados adolescentes. Beijinho para aqui, beijinho para ali. E eu a incomodar os pobrezitos...
Andei à chuva. Vamos lá a ver se se entende: eu gosto de chuva; eu ando à chuva. E, conquanto não vente, estou feliz e grata. Grata, pois, olha se eu não visse a chuva, se apenas a ouvisse, a cheirasse, a sentisse. Eu também vejo a chuva, tenho olhos que veem.»

Hoje é dia 16 e já tirei as fotos, não esperei que a permanência do poeta cumprisse 46 anos. Entretanto pus-me a pensar que era giro voltar a este lugar de três em três meses e assim retratar as diferenças nas folhas das árvores e na cor do céu, na ausência de nuvens, no brilho do sol.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Poemas ou uma espécie disso

Nada como um dia menos fértil em ideias publicáveis para divulgar os poemas que publiquei no Facebook. Os poemas remanescentes, não os que estão editados nas antologias Poesia sem Gavetas - Parte I (Pastelaria Studios Editora) e Nós, Poetas, Editamos - Parte I.
Uns poemas já por cá andavam, neste blogue ou no anterior; outros são ideias transformadas a partir de prosas; outros são completamente inéditos. É conforme, pouco me importa se está mal formado ou mal concebido ou mal apresentado. São poemas ou uma espécie disso e pronto.

Boa previsão

Sei tão bem
Como é o dobrar da esquina
Sei como é o vento
Como sei
Que naquela subida
Vou encontrar
O teu olhar estrelado.


Querer

Quero ouvir as revelações
Diz-me como está a tua cabeça
Conta-me dos medos
Das traições
E do amor
Também
Quero saber


A friorenta

Tem frio
Não vem de fora
Mas infiltra-se
Ora e esta?
Estranheza...

Está por baixo da pele
Mesmo antes da carne
Rodopia e sopra
Entre as duas:
Pele e carne.

O frio
O ruim
Esse malfazejo
Não vem de fora
Não

O frio
É a alma à solta
Rebelde
Entre as duas:
Pele e carne


Soltura

Liberdade de expressão
É um
Envolvente corcel
É um
Céu
É um
Arco-íris
Que promove o convívio
Doentio

Deste modo
Denunciantes
Não fales
Deixa-te disso

Escuda-te
Num
Vão de escada
Num
Esconderijo
Melhor assim


Mulheres

A mulher verde possui
frescura
vigor
leveza
despreocupação
liberdade.

A mulher vermelha possui
temperança
conhecimento
histórias
saudade
tolerância.

Uma
não é
melhor
que
a outra.
Nem pensar.


Troça

Eu não faço
Pouco das pessoas
Não
Não e não
Eu faço muito
Faço muito das pessoas
Faço-as em muito.


Não sei o que mais querem...

Eu sou bem-disposta
Eu trabalho
Eu simplifico os problemas
Eu enxoto a tristeza para as profundezas
Eu afasto as arrelias
Eu rio
Eu falo
Eu não me queixo
Eu ando
Eu converso
Eu tolero
Eu mexo-me
Eu convivo
Eu comprazo-me com o constante pulsar da vida


Terceira pessoa

Gostava de ser uma mulher destemida.
Ela, que esta não sou eu.
Queria mostrar ao mundo como conseguir ser feliz.
Ela, que esta não sou eu.
Trabalhava de bom grado, se tivesse o apoio necessário.
Ela,que esta não sou eu.
Transformava as vivências e experiências de tal modo que pareceriam fantásticas.
Ela, que esta não sou eu.
Viveria feliz; contente; capaz.
Ela, que esta não sou eu.
Que fácil escrever na terceira pessoa, afinal!


Desnecessário

Não preciso de ninguém para absolutamente coisa nenhuma. Nada. Tenho a internet. Tempos modernos, chamem-lhe assim, se o preferirem.
Internet → Google, Sapo. IOL. Cliques. Saber. Disciplina.
Pesquiso. Flutuo. Ou navego, caso prefiram. Aprendo. Fixo. Divulgo.
Fantástico.
Pessoas para quê? Desapareçam, vá. A solidão tem um lado obscuro que me diverte. Ou ausência de conflitos. É esta a melhor parte. Sou uma excelente pessoa sempre que ando sozinha por aí.


Gostos

Ela tem um gosto
Ele tem o gosto dela
Ela gosta do gosto dele
Porque tem o gosto dela
Ela gosta
Dele


Diz-me tu

Se alguém me perguntar:
«Ó Gina, o que querem as mulheres?»
… Eu sei responder.
Não perguntes nada,
Deixa lá isso
Reparaste no título deste poema bastardo
E subtilmente malicioso e provocatório?
Diz-me tu.


Sem título

Marimbo
Falo da tristeza,
da morte,
da estupidez
e até das dores.
Que se lixe!
A vida é composta disso também
E principalmente.


O amor

Queixa infantil:
Ela não quer ter coisas esquisitas.
Abraço consolador:
Então ela não vai ter essas coisas esquisitas.


O Amor

Um dia
Tive um amor impossível

Ele
Não gostava de mim
Estranhamente...

Pouco importa, agora

Podiam desterrar montanhas
Podiam sorver os mares
Eu tive um amor

Ele
Não gostava dos meus versos


Chuva de verão

Chove em Lisboa
É uma chuva grossa,
as gotas distam umas das outras
É chuva de verão
Passageira,
quase alegre,
a gente sabe que acaba num instante
Gosto de a sentir no peito,
nos braços,
nas pernas.
Refresca e seca depressa
É chuva de verão.


Sem título

O vento esfuma as palavras ditas
Mas nunca leva as que se escrevem


Sou capaz

Capacidade: atrair; manipular
Pergunto

Sim, há dias em que sim
Esperar é alcançar
Haja paciência

Sim, tenho paciência
Para esperar
Para atrair
Para manipular

Tenho capacidade
(imensa)
Tenho pena dos consortes
(não muita)
Tenho ardileza
(a rodos)

E tenho dito!
(escrito!)


Boas lembranças

Ah,
eu lembro-me de si
Diz ele,
de expressão aberta,
com um sorriso cheio de brilhozinhos
bem intencionados.

Eu
também me lembro de si
Diz ela,
debaixo duma aura subtilmente provocatória.
Sempre e só.
Quem lhe dera alguém
que prolongasse este prazer.


Tu e tu

És tu
Não sei quem me alenta, quem me faz sorrir. Sequer conheço quem me faz escrever. Não sei quem tu és. Conta-me tu. De ti e dos outros, vá.
Tu és
Tu não és diferente, és especial. A igualdade entre os seres impera, é o que se promove, não é? Sendo assim sou igual a ti... Já se vê, sou também especial. Ah pois é!


Água


É a vida;
São pessoas.
Mesmo que chova.
Que queres?
Anda para a frente, vá!
Mesmo que chova
Que importam os lagos na calçada?


Caçar leitores


Alusões subtis?
Sim, também as há.
Tenho medo de escrever,
Lembras-te?
Ou por outra:
Incidir ou alumiar
Não é engodo nenhum
E a pescaria escasseia
Aniquilando a partilha


A vontade

Não sei o que faça com a astenia
Não sei o que fazer
Fazer mais
Melhor ficar, deixá-la
Apodrecer, renascer
Estagnar para logo mais brotar.


Deambulando

Querem vender malas e ler a sina
Querem vender castanhas quentes e boas
Querem ter a avenida iluminada com cores alegres
Querem vender livros de histórias
Querem que eu beba um cafezinho
Querem que eu leia
Querem que eu debite assuntos
Querem que eu tenha frio
Querem que eu não tenha frio
Querem que eu venda lacas e esfregonas
Querem que eu escreva
Querem que eu escreva
Pergunto


Outono

A água por causa da secura do solo
A morte para haver renascimento
O sol fraquinho para relembrar o brilho
As nuvens porque anunciar é preciso
O vento...
Para secar a roupa...?


E pronto!

E pronto!
Uma pessoa está aqui a descansar,
a gastar o tempo que é demais,
numa ânsia que só visto,
porque uma pessoa
não tem capacidade
para se manter sossegada.

E pronto!
Uma pessoa está aqui.
E vem um senhor
cheio de modos cavalheirescos
perguntar se pode tirar o jornal
num olhar intenso e perturbador.
Posso?
Pode, sim senhor.
Não se importa?
Com certeza que não, faz favor!

E pronto!
O cavalheiro leva o jornal
deixando uma pessoa mais isolada ainda.

E pronto!
Uma pessoa põe-se a escrever na esplanada.
Escrever: ato que traz companhia.
A manhã clara,
amena,,
um primor.

E pronto!
Cai um pingo de água nas costas da pessoa
que está aqui a escrever.
Cai do ar condicionado,
a malvada.
O pingo acertou mesmo naquele orifício
que tem a t-shirt (lindérrima!) que hoje enverga.

E pronto!
Uma pessoa dá um salto de todo o tamanho
na cadeira.
Lá se vai a pose de senhora escrevente.


Visões fecundas

Não é preciso imaginar
Vejo.
Antes isso, antes ver
Ou imagino o que imagino com base no que não vejo?


5

Passaram cinco anos.
Cortou o cabelo num penteado novo e moderno: franja grossa, as mechas caindo logo acima das sobrancelhas, como fasquias aparentemente rebeldes.

Passaram cinco anos.
Deslocou-se à casa ferrosa para almoçar e conviver com os amigos. No caminho, florinhas resplandecentes, ervas verdejantes e passarinhos cantantes prestavam-lhe vassalagem.

Passaram cinco anos.
Tirou fotografias a todos os amigos, ávida da sua presença. Uns riam com prazer, outros conversavam animadamente, ela fazia parte do cenário clicando aqui e ali. Cabecinhas juntas, amigas, denunciando cumplicidade e amores sinceros.

Passaram cinco anos.
O cabelo cresceu, vigoroso mas disforme. As flores murcharam, ficaram secas, esguias, quebradiças. A azáfama instalou-se. Os amigos mudaram hábitos e partiram sem dizer adeus.


A não esquecer

Conheci-te às apalpadelas,
Gerei-te a mando de apetites,
Criei-te a gosto.

Agora me lembro:
Sei-te de cor,
Ainda.


Outra coisa

Quando meto uma coisa na cabeça...
é teimosia,
é não olhar à volta,
é destratar o real.
Quando meto a cabeça numa coisa...
é leviandade,
é arrojo,
é poderio.


Sons

Durante o dia fui música
Os brincos tilintavam as pulseiras tiniam
Uma sinfonia, eu.


Versejar

Não sei fazer poemas, senhores
Não sei falar de amor nem de fadas
As minhas apresentações
São desvarios literários
Em frases curtas
Sem pontuação


Poesia
Eu.
Simplista na prosa...
Logo...
Simplista na poesia.
Eu.


Um dia

Um dia compro uns sapatos caros,
faço o pino,
canto em público,
escrevo um poema...
porque um dia há-de ser um dia diferente.

Sol

O sol envelhece a pele
Mas como lhe resistir?
Como ficar em casa,
à sombra?
Sem viver?
Sol: sinónimo de vida.

Sol: um poema,
ao sol,
ao vento,
luz; calor; vida,
disfrute; esplendor.
Assim.


Ah, se eu fosse poeta!

Se eu fosse poeta
hoje teria feito um belo poema,
cheio de tristezas,
mas belo.
Assim,
resta-me a prosa,
na qual me espojo,
sem que consiga despojar as mágoas.


Dúvida

Para (eu) escrever
Talvez interesse o (meu) viver
Talvez não interesse a (minha) vida.


Sou uma Filha do Mais ou Menos

Mais ou Menos
Boniteza
Mais ou Menos
Bondade
Mais ou Menos
Ruindade
Mais ou Menos
Honestidade
Mais ou Menos
Disposição
Mais ou Menos
Carinho
Mais ou Menos
Rudeza
Mais ou Menos
Simpatia

Boneca de porcelana

Sou uma boneca de porcelana.
Estática.
Estou no alto de uma prateleira,
avisto tudo ao derredor,
invisível e ausente.
como que dispensável...
como se opiniões e ideias sejam infundadas,
nulas.
Mas se me tirassem da prateleira
e me pusessem dentro do armário,
todos me dariam pela minha falta.
Irradio algo que não sei o que é,
Que ainda não cheguei lá.
Sou uma boneca de porcelana.
Frágil.
Tirarem-me da prateleira contém perigo.
Dificulto o manuseamento pela minha fragilidade.
Eles não sabem como lidar comigo
porque eu não sei lidar com eles.
Sou estática e frágil.
Sou interativa e robusta.
Consigo interagir com o meio
e não fazer parte dele.
Tudo isto de uma só vez.


Zás!

Zás é cortante e arguto
Despachado e bruto
Frio e resoluto.


Lugar limpinho

Quero um lugar limpinho
Onde possa pôr os pés
Quero um lugar limpinho
Onde haja espaço para os sorrisos
Quero um lugar limpinho
Onde mostre uma postura condizente
Quero um lugar limpinho
Onde veja recantos de aprumo


Ordens

Parágrafo:
Para de grafar nesta linha.
Recomeça aqui, agora podes.
Grafa, quero ler.


Vulcanicidade

Vulcão inativo, não.
Vulcão fracamente ativo, talvez.
De vez em quando,
por culpa da natureza,
ocorre erupção,
sai uma lava incandescente,
fere e queima quem se atravessa à frente.
Matar pessoas,
nunca,
apenas o horror.
Depois acalma.
Ativo,
o vulcão,
está sim senhores!
Mas contido.


Conjuntura

Lugar da musa:
Café; tinta; papel
Movimentos; burburinho
Mescla sedutora e irresistível.
Decisão:
Vou escrever!


1º poema

não aparece
a trovoada por não se ouvir
pensamentos difusos
flores queria sentir
céu azul e límpido
mas chove na minha cabeça


Questões

Quem escreveu que eu tenho de ser feliz?
Qual a mais bela cor do arco-íris?
O que fazer para cessarem os dias?
Como congelar um momento bom?
Onde está o amor?
Quando amarrar o riso?
Quem manda em mim?
Dói muito ter liberdade?
Solto agora a gargalhada?


Domingo

Amanhã é segunda-feira. E depois?
Estará um dia lindo:
sol, calor, os elementos da boa disposição.
Aproveita!
Amanhã é segunda-feira. E depois?
Pinta os lábios,
enfia um anel no dedo,
brincos nas orelhas,
veste uma roupa diferente.
Está calor!
Amanhã é segunda-feira. E depois?
Deixa-te de tristezas,
vai trabalhar!
Mas feliz, vá!
Amanhã é segunda-feira. E depois?
Depois é terça-feira...


Rima
Autoestima
em cima...
rima.

Não a ostentar lá em baixo,
portanto,
será seguramente favorável.


A passo

Dona Petra passa na rua.
Bengala na mão.
Antes canadiana. Bengala, não.
Plural: canadianas, duas são.
Tiquetique, tiquetique, quando assentam no chão.


Passeio

Chamam-me maluca
Porque aproveito o passeio
Espaireço
Passeio ao frio
À chuva
Passeio ao sol
E ao calor também,
Em caso disso
Fechada não,
Que adoeço
Asfixio
O chão foge
A cabeça rodopia
Chamem-me maluca se quiserem
Estarão em cima da verdade
Sem o saber.


Outono

É por causa das folhas secas.
Se não fossem as folhas no chão,
o mundo não estava assim,
tinha outras cores,
vivia-se doutra maneira.
Para quê caírem folhas?!


Não confesso às paredes


Confesso a uma nuvem
ou às folhas das árvores.
Às vezes também segredo ao arco-íris,
mas esse é mais arisco,
nem sempre aparece.


Tristeza

Estás triste?
Sim.
Porque é que estás triste?
Sou viciada em tristeza,
preciso dela para escrever.


A droguista

Na minha rua há um sítio
Onde fixaram um letreiro:
Estamos a pintar lá em baixo.
A pintar lá em baixo... coitados!
Lá em baixo canta-se,
ri-se,
dança-se,
chora-se.
Lá em baixo não se pinta!
Lá em baixo arrumam-se esfregonas
e garrafões de cera.
Lá em baixo oferece-se pancada ao cão estúpido
com o par de vassouras que se traz na mão.
Qual pintar, qual quê...
Lá em baixo ouve-se o canto dos passarinhos,
observa-se as nuvens
e as escadas de caracol.
Observa-se as rosas
e os fetos
e aquela palmeira.
E a nespereira.
Pintar lá em baixo... Bah!

A artista

Sou artista de verdade:
tudo o que faço
extremamente bem…
é inútil
ou engorda!


Obituário


Afoguei um cachorrinho
- com dono e sem abandono -
numa poça pouco profunda.
Eu,
alta e possante para o bicho,
enraivecida,
agarrei-o pelo pescoço e fui apertando.
Ele estrebuchou e morreu.
(Matei o meu amor, já não uso aquele anel.)
Agora sofro eu,
é a mim que dói.
Dói que se farta mas não vou ruir,
que sou possante.
(Afinal de contas... Ando sempre a inventar.)


Terceira pessoa

Ela considerou estar tão bestificada como supunha, em certa altura do dia. Nem queria acreditar... É verdade, verdadinha.

Ela tirou fotos à fruta, aos tomates, às especiarias, ao relógio e ao cato. Para se distrair do infortúnio, que ser uma besta cansa que se farta.

Ela hoje quis escrever na terceira pessoa do singular. Uma voz sussurrou-lhe: «Afasta-te do ego! Afasta-te do ego! Não é bom agoiro tanto ajuntamento!»
A ver se o disco vira, se toca o lado bê, pensou ela. Hum... Torceu o nariz.

Ela grafou umas coisas.
Ela rabiscou contrariada.
Ela publicou insatisfeita.


Não queres escrever?

Queres escrever da avenida mais pequena de Lisboa?
Não.
Queres escrever da cigana aos gritos com o polícia?
Não.
Queres escrever da senhora assustada com os números do exame de oncologia?
Não.
Queres escrever do homem que te cuspiu para a cara?
Não.
Queres escrever do jovem extraordinário que estava no lugar da musa?
Não.
Queres escrever do granizo d' hoje?
Não.
Então e da beleza floral destes dias luminosos? Ontem esqueceste-te...
Não.
Queres escrever...
Não!


Quente, quente, quente!

O calor chegara.
Porém, não tardaria a abalar,
contrito,
pela patada que dera ao amigo frio.
Milena e os calores.
Milena tinha calor.
Oh céus, que calor!
E a senhora,
sentada no sofá preto,
de perna aberta,
escanchada,
desavergonhadamente!
Está calor.
Arejar é preciso.
Não!
Milena não queria tal vislumbre.
Mas tinha de ser...
A menos que fechasse os olhos.
Sair dali também era uma boa ideia.
Pois bem.
Foi-se.


Sensualidade

Se eu sou sensual?
Sim, sou.
Sou bastante sensual.
Imensamente.
Sai-me pelos poros a toda a hora.
Até escorre.
Em forma líquida que é para ser bebida.
Sou sensual, pois.
Olha só:
Não compro iogurtes simples já açucarados
porque gosto de ser eu a mexer nas minhas coisas.


...

Sinto saudades do que não vivi.
Não sinto saudades daquele tempo em que.


...

Ramerrão.
Todos os dias são iguais.
Estou sozinha.
Siga a vida.


O bajulador

Olha o senhor professor.
Bom-dia, senhor professor.
Passou bem, senhor professor?

Vem beber o cafezinho, senhor professor?

Não, um penalti de tinto
e um prego bem passado.


Loucura

Qual louca, qual quê!
Ela não está louca → hoje foi trabalhar;
amanhã irá trabalhar;
depois de amanhã irá trabalhar.
Tomará conta dos hábitos
– que não suporta -,
olhará e cuidará com zelo para que não se percam.


Consumação & efemeridades

Consumar o efémero,
inventei eu.
atuar diariamente em cima de insignificâncias
mui necessárias à vida.
Coisinhas desinteressantes
Que se esfumam à velocidade dum ai suspirante.
Ninguém vê nem fala das ditas coisinhas.
Mas é preciso.
É mister.
Consumar o efémero é mister.


Sem título

Desfasamento.
A realidade é uma névoa.
O imaginário é um dia claro e ameno.
Tão melhor assim...


Está certo!

As certezas pertencem aos néscios
Talvez seja assim, quero eu dizer.


Tópico

Não
escrevo
essas
palavras
bonitas
que
todos
gostam
de
ler.


Olha lá!

Quando te perguntarem se está tudo bem,
diz que sim,
mesmo sabendo que não passa de uma reles farsa.
Não cries ondas nem sopres brisas,
por mais leves que sejam.
Deixa-te estar,
não contes das aflições e tristezas.
Sequer das alegrias e prazeres.
Mantém-te sossegada,
é o melhor.
Dizes só que está tudo bem e a vida segue.
Ninguém realmente gosta ou admira alguém diferente.
Primariamente pode haver uma atração manifestamente agradável,
culpa dos opostos,
eles acham-te graça,
o que te reconforta,
mas olha que é uma paixão balofa,
estéril,
sem forma ou consistência,
dissipa-se num instante.
Não tardará que passes a... diferente,
aí não servirás para mais nada.


Distração

Alguém fungou ruidosamente
Ele olhou para mim
Não fui eu 'migo.
Eu estou só a chupar o pau de canela
Alguém vociferou um
«ah, 'tava a ver!»
Ele olhou para mim
Não fui eu 'migo
Eu estou simplesmente bebericando o cafezinho bem bom

Depois aconteceu o términus da pausa
Houve barulho de velcro, por sinal gritante,
Houve barulho de clique, pequenino e inocente mas audível
Houve barulho de claque, mola vigorosa
Eu, tudo eu
Ele não olhou mais para mim, estava distraído...


Oferenda

Oferecer os escritos de raspão é porreiro,
Vê lá se consegues dizer alguma coisa...
Não consegues, pois não?


Gostar

Nem toda a gente gosta de toda a gente
Eu não gosto de toda a gente
Há gente que não gosta de mim
Mas deviam...
Eu sou uma pessoa extraordinária
Ao sério.


Caso temerário

Tenho medo de escrever.
Escrever é um bicho grande
e feio
e feroz
e ruim,
Um papão de criancinhas indefesas e lindas.


Contradição

Gosta de dar nas vistas
Sabe dar nas vistas
Nunca quer dar nas vistas
Não gosta de dar nas vistas
Não sabe dar nas vistas
Quer dar nas vistas


A prestável

Normalmente acho que não presto para nada
Por isso, talvez não deva escrever aqui mais nada
Tenho qualidades que não lembram a ninguém
E nem a mim me ficam na memória
Os meus defeitos têm mais força
Perduram na minha memória
Pareço ter só defeitos
E agora não me apetece escrever sobre eles.


Limbo

Agora ficava aqui.
Até quando nem sei.
Depois alguém me levaria ao colo para outro destino do meu agrado.
Podia ser a baixa pombalina ou o jardim do Campo Grande.
Quando já não desse mais,
ou quando já tivesse visto tudo
(não posso falar em tédio senão perco a poesia toda...),
viria o vento e sopraria
- suavemente, que eu sou uma pena de galinha -
empurrando-me até outro destino...
– a ver na altura,
que a imaginação já se me acabou.

 
Poema capilar

Gaja-gira
No passeio
Gaja-gira
Vai
Cabeleireiro-cortês
Vem

Mimi, Mimi
Do coração
Beijinho daqui
Beijinho dali
Oh céus!
Que rubor

Que faz aqui
Pergunta Mimi
Nada ausente
Sorridente
Covinha na bochecha
Oh céus!

Gaja-gira
Verseja
Gaja-gira...
Pragueja
Lamenta
A tormenta...